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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Teresa, quando recebeu a surpreendente nova, já tinha enviado a carta daquele dia a Simão. Em sua aflitiva perplexidade, resolveu fazer-se doente, e tão febril estava das comoções, que dispensava o artifício. O velho não queria transigir com a doença; mas o médico do mosteiro reagiu contra a desumanidade do pai e da prioresa, interessada na violência. Quis Teresa nessa noite escrever a Simão; mas a criada da prelada, obedecendo às suspeitas da ama, não desamparou a cabeceira do leito da enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escrivã, numa hora de má digestão daquele certo vinho estomacal, que Teresa passava as noites em oração mental, e tinha correspondência com um anjo do céu por intervenção duma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no pátio do convento esperando a esmola de Teresa; mas cuidaram que era aquela pobre uma devoção da menina. As palavras irônicas da escrivã foram comentadas, e a mendiga recebeu ordem de sair da portaria. Teresa, num ímpeto de angústia, quando tal soube, correu a uma janela, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lançou-lhe ao pátio um bilhete com estas palavras: "É impossível a nossa correspondência. Vou ser tirada daqui para outro convento. Espera em Coimbra notícias minhas". Isto foi rapidamente ao conhecimento da prioresa, e, logo, às ordens dela, partiu o hortelão no encalço da pobre. O hortelão seguiu-a até fora da porta, espancou-a, tirou-lhe o bilhete, e foi do convento apresentá-lo a Tadeu de Albuquerque, A mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simão o acontecido.

Simão lançou-se fora do leito e chamou João da Cruz. Naquele aperto queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem que lhe estendesse mão capaz de apertar o cabo dum punhal. O ferrador ouviu a história e deu o seu voto: "esperar até ver". Simão repeliu a prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Viseu imediatamente.

Mariana estava ali; ouvira a confidência, e achara acertada a opinião de seu pai. Vedando, porém, a impaciência do hóspede, pediu licença para falar onde não era chamada, e disse:

— Se o senhor Simão quer, eu vou à cidade e procuro no convento a Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça duma freira, e dou-lhe uma carta sua para entregar à fidalga.

— Isso é possível, Mariana? — exclamou Simão, a ponto de abraçar a moça.

— Pois então! — disse o ferrador — o que pode fazer-se, faz-se. Vai-te vestir, rapariga, que eu vou botar o albardão à égua.

Simão sentou-se a escrever. Tão embaralhadas lhe acudiam as idéias, que não atinava a formar o desígnio mais proveitoso à situação de ambos. Ao cabo de longa vacilação, disse a Teresa que fugisse, à hora do dia, quando a porta estivesse aberta ou violentasse a porteira a abrir-lha. Dizia-lhe que marcasse ela a hora do dia seguinte em que ele a devia esperar com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, prometia assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendiá-lo para se abrirem as portas. Este programa era o mais parecido com o espírito do acadêmico. Em vivo fogo ardia aquela pobre cabeça! Fechada a carta, começou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados impulsos. Encravara as unhas na cabeça, e arrancava os cabelos. Investia como cego contra as paredes, e sentavase um momento para erguer-se de mais furioso ímpeto. Maquinalmente aferrava das pistolas, e sacudia os braços vertiginosos. Abria a carta para relê-la, e estava a ponto de rasgá-la, cuidando que iria tarde, ou não lhe chegaria às mãos. Neste conflito de contrários projetos, entrou Mariana, e muito alucinado devia de estar Simão para lhe não ver as lágrimas.

O que tu sofrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse moço é gratidão ao homem que salvou a vida de teu pai, que rara virtude a tua! Se o amas, se por lhe dar alívio às dores tu mesma lhe desempeces o caminho por onde te ele há de fugir para sempre, que nome darei ao teu heroísmo! Que anjo te fadou o coração para a santidade desse obscuro martírio?!

— Estou pronta, disse Mariana.

— Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faça muito por não vir sem resposta — disse Simão, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro.

— E o dinheiro também é para a senhora? — disse ela. — Não, é para si, Mariana: compre um anel.

Mariana tomou a carta, e voltou rapidamente as costas para que Simão não lhe visse o gesto de despeito senão desprezo.

O acadêmico não ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o quinteiro, onde o ferrador enfreava a égua.

— Não lhe chegues muito com a vara — disse João da Cruz a Mariana, que, de um pulo, se assentou no albardão, coberto de uma colcha escarlate. — Tu vais amarela como cidra, moça! — exclamou ele reparando na palidez da filha — Tu. que tens?

— Nada; que hei de eu ter?! dê-me cá a vara, meu pai.

A égua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na filha e na égua, dizia em solilóquio, que Simão ouvira:

— Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Viseu! Pela mais pintada não dava eu a minha égua; e, se cá viesse o Miramolim de Marrocas pedirme a filha, os diabos me levem se eu lha dava! Isto é que são mulheres, e o mais é uma história!

CAPÍTULO X

Apeou Mariana defronte do mosteiro, e foi à portaria chamar a sua amiga Brito.

— Que boa moça! — disse o padre capelão, que estava no raro lateral da porta, praticando com a prioresa, acerca da salvação das almas, e de umas coretas de vinho do Pinhão que ele recebera naquele dia, e do qual já tinha engarrafado um almude para tonizar o estômago da prelada.

— Que boa moça! — tornou ele, com um olho nela e outro no raro, onde a ciumosa prioresa se estava remordendo.

(continua...)

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