Por Camilo Castelo Branco (1882)
A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de sebo com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna.
– Arranja aí um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você cá traz, mulher!
– É enquanto não pega bem a torcida – explicou a criada, caminhando atrás do padre para o lado oposto ao esconderijo. Com deito, a claridade difundia-se, mas tão devagar que ninguém diria a velocidade que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os nós dos dedos nos tampos das pipas, que toavam o som abafado de cheias.
E o 14:
– Ó meu sargento, o tanso do abade casca-lhe rijo no verdasco! Estão cheiinhas! – E apontando para as duas pipas vazias do canto, o sargento perguntava se o vinho daquelas já lhe tinha caído na sacristia – e dava piparotes na barriga do padre.
O abade tinha uns sorrisos pálidos, comprometedores como uma denúncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atrás das pipas.
– Há-de ser ratos – conjecturou o abade, trémulo, engasgado.
– Palpa com a baioneta por trás das pipas, ó 24! – disse o sargento.
Assim que o aço da baioneta raspou na parede, a Senhorinha começou a dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.
– Que diabo tem a velha?! – perguntou o Pílula. Dão-lhe estupores, bem?
– É flato, costuma-lhe a dar – elucidou o abade. O 24 voltara-se a ver a velha escabujar, e retirara a baioneta de trás idas pipas. O abade teve um momento de esperança, cuidando que o exame estava feito:
– Tem visto, Senhor Sargento? Aqui não há nada. Os senhores vieram enganados a minha casa. – E caminhou para a porta com a luz.
– Espere aí, seu padre! Anda-me com a baioneta, 24. Escarafuncha-me esses ratos.
O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as baionetas resvalaram por corpo que lhes abafava os tinidos metálicos das pontuadas, ouviu-se um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E nisto apareceu uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos.
– Oh! – bradou o Pílula – muito bem aparecido nesta função, Sr. D. Miguel I!
Suba para cima desse trono e dê lá de cima um bocado de cavaco às tropas! Mas o melhor é descer cá para baixo, Real Senhor!
O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem:
– Parece o padre eterno, ó meu sargento!
– Com quem ele se parece é com o Remexido do Algarve – afirmava o 14.
– Desça daí que ninguém lhe faz mal, homem. Está preso à ordem do governador civil – concluiu o sargento com seriedade imponente.
– Este senhor?... não... – disse o abade com as mãos postas .
– Não seja asno! – volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel. É um falante que o está aqui a comer a você e mais aos patolas tia sua laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão ele entra na escolta em mangas de camisa.
– Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu quarto – suplicou o abade.
– Sim, que se arranje com guardas à vista. – E acompanhou-os à saleta.
Quando envergava o casaco de pano piloto, o abade disse-lhe, com um gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do paletó.
O sargento perguntou que papelada era aquela que estava sobre a mesa. Leu a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças:
– Olha que grande pândego você é! Você como se chama, ó seu coisa? – E leu alto:
Rol das mercês que Sua Majestade o Senhor D. Miguel I fez em Portugal e que se descrevem neste livro de apontamentos provisoriamente.
E na primeira página:
Marcos António de Faria Rebelo, abade de São Gens de Calvos, capelão-mor de el-rei e Dom Prior de Guimarães.
E perguntava ao abade:
– Este ratão deste Dom Prior é você, hem? Parabéns!
Em seguida:
Torcato Munes Elias, visconde de São Gens, secretário privado de el-rei.
– Torcato Nunes! – recordava o Pílula. – Eu parece-me que conheço este diabo de o ver em Braga no Café da Açucena, na Cruz de Pedra. Nunes! um pelintra. Onde está o visconde, que lhe queda dar um cigarro? Enfim cá levo a papelada para Braga – e enrolava os papéis. – A gente precisa conhecer os titulares novos para os respeitar e acatar, amigo Dom Prior de Guimarães.
Quando a escolta se formou fora do portão e o preso entrou ao centro, com a fronte majestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na residência um choro como à saída de um defunto muito querido. Eram a cozinheira e a outra criada, num arrancar de soluços, enquanto o abade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as árvores e de trás das paredes. O Torcato Nunes Elias, acordado pela mulher, que recebera a nova da prisão, saltara da cama, e correra à residência, perguntando ao abade se el-rei tinha levado as peças das Botelhas de Braga.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.