Por Aluísio Azevedo (1882)
Nunca mais se separaram, até que o oficial, cansado de vagar pelo oceano, requereu reforma, arranjou um lugar em terra. na cidade do Porto, e casou pouco tempo depois com a irmã bastarda do conde de S. Francisco, Cecília, a filha da interessante professora Helena, de quem já falamos.
Para o leitor não é também novidade saber que, do consorcio de Leão Vermelho com a filha de Helena, resultou o nascimento de Gregório.
Por esse tempo Leão Vermelho era ameaçado de perder o emprego e correu para a capital, com a intenção de colocar-se sob a proteção imediata do ministro da marinha. Nada obteve; e, em um assomo de raiva, arrancou as dragonas e fez presente delas ao monarca, pedindo que lhe desse quanto antes a demissão da armada. Nisto foi logo atendido. E então, desempregado e tendo de prover a subsistência da família, resolveu aventurar-se na marinha mercante e partir para o Brasil.
Antes, porém, era preciso dar um pulo ao Porto, tranqüilizar a mulher e abraçar o filho. Não gastou muito tempo com isso, e, já na ocasião de partir, a bordo, no segredo do seu beliche, abraçou o seu antigo criado, aquele que nunca o abandonara, e disse-lhe com os olhos cheios d’água:
— Tubarão! confio-te minha mulher e meu filho; não os percas de vista. Sei que és louco pelo pequeno e isso faz-me partir tranqüilo.
Aproximou-se mais dele e disse-lhe depois, em segredo, alguma coisa que o fez estremecer ligeiramente.
— Pode ir descansado, capitão! respondeu o ex-grumete, prometo que cumprirei as suas ordens!
— Então toma lá! é o presente que te deixo...
E passou-lhe um embrulho que tirou do bolso.
— Obrigado! disse Tubarão, ao examinar o objeto recebido.
Era uma boa navalha de marinheiro.
CAPÍTULO X
ALGAS
Tubarão deixou a bordo o seu antigo comandante e voltou cabisbaixo e triste para casa. As últimas palavras que lhe segredara Leão Vermelho, obrigavam-no a cair em meditações de sabor estranho e amargo.
— Não! não é possível!... resmungava ele consigo. O capitão não tem razão! são desconfianças! não pode deixar de ser!...
Podia lá acreditar que a Sra. D. Cecília, tão meiga, tão simples, fosse capaz disso?!... Não! definitivamente o capitão não tinha a cabeça no lugar quando lhe recomendou que vigiasse a mulher!...
E, desta forma, ia o Tubarão, caminho de casa, a gesticular consigo no seu monólogo.
Nesse tempo teria ele vinte o oito anos. Era então uma bela estampa, destro e rijo, afeito aos temporais e às duras fadigas do oceano. A vida do mar dera-lhe à fisionomia esse ar contemplativo e doce que se nota quase sempre nos marujos, como se lhes acumulasse no semblante o ressaibo das velhas saudades da pátria e dos amores que ficam em terra.
O marinheiro é fatalmente generoso e bom; ama os seus semelhantes, porque os não conhece; entre eles se antepõe o oceano, onde não chegam intrigas e paixões mesquinhas. E o imponente aspecto do mar fortalece e alarga o coração; a alma forma seus horizontes pelos horizontes que os olhos avistam.
Tudo mar! Tudo céu! Qual é aí o monumento que nos denuncie o prestígio enfermo de algum monarca, a quem a inconsciência entregou um cetro e ergueu um trono? Qual o mausoléu que nos diga a importância da vaidade de algum nababo submergido naqueles inóspitos desertos? Qual é o conquistador que tem lá a sua estátua? qual é a religião que tem lá o seu templo? qual o déspota que tem lá o seu cadafalso?!
Nada! O velho monstro antediluviano não admite prerrogativas; eternamente indomável e altivo não quer que no seu dorso se ergam capitólios e oblações. E é dessa austera independência que o mareante forma o seu caráter e o seu coração. Forte como o mar, brando como as águas, ele maneja tão bem os segredos do ódio, como regula e dirige os impulsos da dedicação e do sacrifício.
Ninguém ama com tantos desvelos, mas também ninguém odeia com tanta impetuosidade.
Para o Tubarão semelhantes leis tinham aplicação muito justa. Ele era homem de arriscar a vida pelos seus amigos e de arrancá-la brutalmente àqueles que os traíssem. Então pelo seu ex-comandante, que não seria capaz de fazer?! Leão Vermelho representava para Tubarão um ídolo sagrado; a Solidariedade nos perigos e nas canseiras do mar identificara aquelas duas almas, ásperas e compassivas ao mesmo tempo.
Depois que os dois abandonaram o navio e se foram refugiar tranqüilamente à sombra da família, o marinheiro sentiu-se possuído de grandes nostalgias: faltavam-lhe as melancólicas sestas que ele outrora desfrutava à proa, cantando à guitarra ao lado dos companheiros, enquanto o sol, ao longe, descambava no poente, atufando-se nos limbos afogueados do horizonte.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.