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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Mas no fundo sentia-se muito mal à vontade e extremamente contrariado. — Por que não havia sua mulher de ser como as outras?... Seria tão bom que os dois, àquela hora, estivessem gozando juntos, numa boa casa, em plena segurança e em plena dignidade do lar, a mais completa e a mais doce felicidade a que tinham direito por todos os motivos! Oh! ele, porém, amava-a tanto, tanto, que seria capaz de todos os sacrifícios para vê-la alegre e satisfeita! — Além de que, Filomena com o tempo havia de mudar de gênio!... Estava ainda muito moça, muito cheia de fantasias, porém tinha o principal, que era — boa índole e bom coração.

E ele subordinava-se, abafando os seus ressentimentos, sem um olhar de queixa, sem um gesto de desgosto, sem nunca desmentir aquele bom humor primitivo, aquela mesma condescendência delicada e simples, aquela mesma extrema amizade, leal e generosa.

Mas os caprichos de Filomena multiplicavam-se a cada momento. Era já a idéia de acompanhar os pescadores ao rio, à noite, munidos de archotes e vestidos como eles; era já a fantasia de uma caçada pela Serra-Morena, em horas de calor, ou então a mania de uma pastorada nos vales sombrios e pacíficos, acompanhando o gado, a cantarem de mãos dadas pelas ribanceiras, ou então deitados na grama, nos braços um do outro, à espera que o sol acabasse de descer no horizonte a sua escadaria de fogo.

De repente veio-lhe uma febre de viajar — viajar muito, sem destino, não pelas cidades muito conhecidas e palmilhadas cotidianamente por centenas de estrangeiros taciturnos, encapotados nos seus ulsters, de binóculo em bandolin e chapéu de sol encapado de verniz. — Não! nada disso! Queria lugares totalmente imprevistos, que ainda não tivessem sido muito decantados pelos poetas como a "sua Itália" e que lhe deparassem comoções inesperadas. — Queria os verdadeiros perigos, as fadigas dos desertos arenosos, a cólera dos simouns, o risco das florestas virgens, as jornadas por ínvios sertões desconhecidos, os horizontes eternos e as longas noites perdidas nos cumes silenciosos das montanhas, ouvindo o sanhudo sibilar dos ventos e os roncos desesperados das feras que tem fome!

O Borges sentiu um calefrio percorrer-lhe o corpo inteiro ao receber dos lábios da mulher aquela terrível sentença.

— Precisamos de uma vida mais agitada! explicou ela, vendo o gesto surpreso do marido.

— Mais agitada?!... ..... — balbuciou este.

— Sim! mais agitada! Sinto-me morrer de inanição! Basta de repouso! É preciso dar começo a uma nova existência!

O Borges esteve a perder os sentidos.

— Pois agora é que ia principiar o exercício?! pensou ele numa verdadeira vagabundagem?!... Mas então que não será ela?! — Se até aqui descansei, qual não será minha pobre vida de hoje em diante?!...

Filomena não percebeu o sobressalto do marido, porque estava já a cismar no Oriente.

Julgava-o numa desordem de impressões recebidas de Antony Rich, René

Menard e principalmente de Lady Anna Brunt, cuja originalidade e cujo espírito másculo a fascinavam. Não lhe era estranho também o Dicionário Arqueológico de E. Bosc e por mais de uma vez folheara o itinerário do Dr. Emilio Isambert.

Com todo esse combustível a fumegar-lhe dentro da cabeça, via-se já dentro das muralhas venerandas de Jerusalém; sonhava o consagrado Sinai, a Abissínia, Malta, a Núbia e — o Egito.

O Egito! o longo e tortuoso Egito, cheio de passado e relumbrante de

tristeza.

Imaginava-se já de sandália e bombachas de brocado, assentada á japonesa no dorso empírico de um camelo, ao lado do Borges, que sumido no seu albornoz característico, as mãos esquecidas sobre o adequado kandyjar, e também de canelas em cruz, toscanejava orientalmente sobre o macio shedad. A imitação de sua querida Lady Brunt, sentia-se já preada por um formidável ghazú e conduzida aventurosamente ao castelo de Djot.

No dia seguinte, estavam de partida.

CAPÍTULO IX

VÔOS ALTOS

Desde então, foi um peregrinar sem tréguas.

Viram muito, atravessarem regiões inóspitas, extensões selvagens, participando de caçadas temerárias, fazendo léguas sobre elefantes, experimentando o enjôo de mil paquetes, a indiferença de mil povos diversos a monotonia das cidades desconhecidas, a dura insociabilidade dos hotéis e o tempestuoso embate de todas as paixões humanas.

E Filomena Borges tomou notas, escreveu memórias, fez apontamentos, criou gosto pelas investigações, pelo estudo; enfim, tornou-se filósofa e sentiu necessidade de compendiar em volume as impressões que recebia.

"O Egito", contava ela depois de longas considerações filosóficas, "desenrolou-se debaixo de meus pés, triste como um sudário. Ajoelhei-me com o meu companheiro (o companheiro era o Borges) defronte dos Spéus arruinados de Ibsambul e dos esborcinados templos d'Efu! Percorri os imensos labirintos subterrâneos de Silsilis, o templo d'Ombos; vi os monumentos da ilha de Philoe, contemplei a esfinge de Gizeh, surgindo da areia ardente do deserto, como um fantasma de granito, que se ergue a meio de um estranho oceano, com os olhos de pedra fitos no levante, o ar atento e concentrado de quem escuta e de quem espera! Que esperas, tu, sentinela do passado?! Monstro! que perscrutas com esse teu olhar imóvel de pedra?!"

(continua...)

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