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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Uma vez casados, ressuscitariam a antiga casa de pensão. Ela dispunha de algum dinheiro; o outro dispunha de um prédio: — era restaurá-lo e dar começo à vida! Coqueiro abandonaria o emprego e voltava de novo aos estudos;” ela encarregava-se da gerência da casa e, nesse ponto, deitando de parte a modéstia, supunha-se mais habilitada que ninguém.

Até já tinha projetos, já tinha asa suas idéias sobre a instalação da casa!...Sentia-se de disposta a trabalhar por vinte!...Coqueiro havia de ver! Seu estabelecimento seria uma casa de pensão modelo! Coisa para dar “uma fortuna e render à Amelinha um bom casamento. Um casamentão!” Ah! Ela , a francesa, sabia perfeitamente como tudo isso se arranjava no Brasil.

E concluiu , jurando inda uma vez, que — para si não queria nada! Que só desejava a felicidade do Coqueiro e de sua irmã dele.

Era assim que entendia o amor!

Três meses depois estavam casados.

Boquejou-se alegremente sobre isso na Escola Politécnica . Os amigos do Coqueiro acharam ocasião de rir, e a tal mulher do ministro plenipotenciário, a gloria da família, escreveu à mãe uma carta carregada de recriminações, declarando que nunca lhe perdoaria semelhante loucura — Loucura , de que para o futuro haveria Mme. Brizard de se arrepender muito seriamente.

Os recém-casados fecharem , porém ,ouvidos a tais palavras e cuidaram de ir pondo em prática os seus novos planos de vida

Meteram mãos à obra. Coqueiro deixou o emprego, contratou um empreiteiro para restaurar o seu velho prédio da Rua do Resende, e a casa de pensão de Mme. Brizard (como teimosamente insistiam em lhe chamar a mulher) surgiu ameaçadora, escancarando para a população do Rio de Janeiro a sua boca de monstro.

CAPÍTULO VI

Foi justamente três anos depois disso que Amâncio chegou ao Rio de Janeiro.

A casa de Mme. Brizard estava então no seu apogeu; de todos os lados choviam hóspedes, entre os quais se notavam pessoas de importância. Pelo tempo das câmaras reuniam-se ali alguns deputados da província, homens sérios, em geral gordos, o ar discreto, um sorriso infantil à superfície dos lábios e um fraseado imaginoso, cheio de poesia. Fazia-se política no salão, depois da comida, em chinelas de tapete, ao remansado soprar do fumo da Bahia.

A dona da casa gozava para eles de muita consideração; só um ou outro, mais atirado à pilhéria, ousava atribuir a algum dos seus “nobres colegas ”os sorrisos de Mme. Brizard.

Outros entusiasmavam-se por ela.

— Não! diziam. — Aquela mulher devia ter sido um pancadão no seu tempo! Tudo que era pescoço e ombros ainda se podia ver! Quem dera a muitas novas um colo daqueles!

De uma feita, um deputado de Minas, criatura baixa, socada, rosto curto, poucas palavras e muita barba, empalmou-lhe a cintura, quando a pilhou sozinha na sala de jantar.

A francesa abaixou os olhos, afastou-se dignamente e foi logo dizer ao marido que era necessário pôr aquele homem na rua.

— O Moura! Por quê?

— Não te posso dizer por que...mas afianço que o Moura não nos convém!...

— Fez-te alguma?

— Faltou-me ao respeito!

— Hein?!

— Agarrou-me a cintura e ter-me-ia beijado o pescoço ,se eu lho permitisse.

Esta última parte da queixa fazia mais honra ao espírito inventivo de Mme. Brizard do que ao seu espírito de verdade; ela, porém, não resistia ao gostinho de falar no seu rico pescoço, sempre que se oferecia a ocasião.

E o Moura teria posto os ossos na rua, se a própria Mme. Brizard não intercedesse por ele no dia seguinte, alegando que o pobre homem havia na véspera carregado um pouco mais no virgem.

Também foi só. Nunca mais, que constasse palpitou ali sombra de escândalo, e a famosa casa de pensão continuava a sustentar a melhor aparência deste mundo. Até se dizia à boca cheia que, por mais de uma vez, já se hospedaram verdadeiras celebridades, e eram todos de acordo que no Rio de Janeiro ninguém fazia espetadas de camarão tão saborosas como as da simpática irmãzinha do João Coqueiro, a Amelita. Uma verdadeira especialidade. Constava até que vinha gente de longe ao cheiro daqueles camarões.

A casa tinha dois andares e uma boa chácara no fundo. O salão de visitas era no primeiro.

— Mobília antiga, um tanto mesclada; ao centro, grande lustre de cristal, coberto de filó amarelo; três largas janelas de sacada, guarnecida de cortinas brancas, davam para a rua; do lado oposto, um enorme espelho de moldura dourada e gasta inclinava-se pomposamente sobre um sofá de molas; em uma das paredes laterais, um detestável retrato em óleo de Mme. Brizard, vinte anos mais moça, olhava sorrindo para um velho piano, que lhe ficava fronteiro; por cima dos consolos vasos bonitos de louça da Índia, cheios de areia até à boca.

(continua...)

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