Por José de Alencar (1878)
O antagonismo manifestava-se em tudo, na pintura, na tapeçaria, nos ornatos, nos móveis. As cores desdiziam inteiramente. O primeiro toucador era azul e branco; este, rosa e ouro. Os trastes daquele, de érable; os deste, de ébano. A colocação dos objetos inversa.
Quando D. Felícia passou ao quarto de dormir, a filha disfarçou para não entrar; mas de relance percebeu que ali havia dominado o mesmo intuito.
Para Amália esta antítese foi uma cifra do pensamento recôndito de Hermano; e ela embalde perscrutou-lhe na fisionomia o verdadeiro sentido. O noivo satisfeito e contente com os elogios de D. Felícia. e com o interesse que a moça tomava por seu toucador, não revelava no semblante a menor preocupação.
Todavia Amália persistiu em descobrir um desígnio naquela circunstância que podia ser casual. O susto que sentira a princípio, com a idéia de ocupar os mesmos aposentos de Julieta, acabava de transformar-se em uma fria suspeita que traspassava-lhe o coração.
Pensativa, reservada, seguiu a mãe durante a visita minuciosa, que fez ao resto da casa. Hermano, ocupado em mostrar à senhora os vários objetos do trem doméstico, não teve ensejo de reparar na frieza da noiva. Se alguma vez achou-a recolhida e silenciosa, atribuiu sua timidez ao recato natural da menina, ante esse prólogo da vida conjugal, que se desdobra aos seus olhos de virgem noiva.
Nesse dia, quando Amália, só e em liberdade, pôde coligir suas impressões e refletir sobre o incidente da visita, a suspeita que se aninhava em seu espírito cresceu, e tornou-se em certeza. A alma de Hermano estava escrita naquele símbolo, que ela a princípio não pudera decifrar.
Julieta ainda tinha naquela casa um templo onde era adorada; ainda ela dominava e possuía tão completamente o coração do marido que este, apaixonado por outra mulher a quem ia ligar-se eternamente e na véspera dessa união, não podia banir de si o passado e divorciar-se do primeiro amor.
Era por isso, era para conjurar as recordações implacáveis que surgiam a cada instante; para iludir-se emprestando uma virgindade artificial a emoções já outrora sentidas, que Hermano recorrera calculadamente àquela diversidade dos objetos que deviam cercá-lo na fase nova de sua vida.
Tinha feito como o pintor que, obrigado a repetir um quadro histórico, buscasse na divergência das cores e na mudança das posições uma novidade que faltava ao assunto; e sem a qual a monotonia lhe mataria a inspiração.
Amália recordava-se de uma observação anterior quando pintava-se a casa, notou que a asa direita do edifício continuava fechada; mas não deu a isso nenhuma importância, distraída como andava com outros cuidados. Agora tinha a explicação. Essa parte da casa, que fora particularmente habitada por Julieta, ficara intata. Era uma relíquia.
— É preciso romper este casamento! disse então Amália consigo.
Tomada a resolução, ela espreitou o ensejo de levá-la a efeito, de modo que poupasse a suscetibilidade de Hermano. Quando estava só, fortalecia-se no seu intento; mas quando chegava o noivo e ela o via tão feliz e tão regenerado por seu amor, não tinha ânimo de precipitá-lo daquele fagueiro transporte, que também a arrebatava.
Uma vez o amante exprobrou-lhe a esquivança que ela mostrava acerca desses projetos de futuro, os quais não passam muitas vezes de fantasias, mas são para os noivos como uma antecipação da felicidade conjugal.
— Quer saber a razão? disse Amália.
— Não é preciso que o diga. Se me amasse como eu a amo, acharia o mesmo prazer nestas futilidades.
A moça respondeu-lhe com uma expressão grave e um olhar repassado de tristeza:
— Se não o amasse, como o amo, acharia decerto prazer em falar nessas esperanças e promessas de uma ventura que é o meu sonho. Mas ao contrário, elas me entristecem.
— Por que, Amália? perguntou ele surpreso e inquieto.
— Tenho um pressentimento.
— Não diga isto!
— Não serei sua mulher, Hermano.
O amante adivinhou a razão dessa dúvida que afligia o espírito da moça; e respondeu-lhe com uma queixa:
— Mostrei-lhe acaso, Amália, o menor indício de arrependimento e hesitação para que retire o consentimento que me deu?
— Não o retiro; dei-lhe a minha mão; ela pertence-lhe.
— Mas então quem se oporá à nossa felicidade?
— Não sei; mas tenho medo que ela não se realize.
— Faltam tão poucos dias!
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.