Por José de Alencar (1861)
Clarinha — Finalmente!... Pois agora sou eu que tas quero dar; tu as mereces. Que fizeste da chave que te dei ontem a guardar? Era a chave da cabana.
Henrique — Má! Não me podias ter dito logo! (Entra Joaquim)
Clarinha (faz gesto a Joaquim para deitar o ramo num vaso dos consolos) — Outra prova.
Henrique — Não preciso de mais, não precisava nenhuma.
Clarinha (a Joaquim) — Esqueci-me de te perguntar. Rondaste ontem ao escurecer pela grade do jardim? Viste quem me roubava as flores?
Joaquim — Não vi ninguém, não Senhora. (Henrique aperta a mão de Clarinha)
Clarinha — Está bem; manda o Senhor Sales entrar para aqui mesmo. (Joaquim sai)
Henrique — Não! Eu vou encontrá-lo.
Clarinha — Ainda! (Introduz o bilhete do Sales no ramo)
Henrique — Não desconfio de ti, Clarinha! Quero punir este miserável.
Clarinha — Isto é apenas uma questão de amor-próprio para mim. Deixe-me o prazer de corrigir essa criançada.
Henrique — Não me poderei conter.
Clarinha — Quer fazer ao Sales a honra de suspeitá-lo? Reflita. Seria uma injúria à sua mulher! Nem dê a perceber que sabe cousa alguma. Promete-me.
Henrique — Tu o queres!
CENA IX
Henrique, Clarinha e Sales
Sales (a Henrique) — Ah! Não sabia que já tinha voltado! Como lhe foi de caçada?
Henrique — Viva, Senhor.
Sales — D. Clarinha! (Estende a mão)
Clarinha (disfarçando, recusa a mão) — Não repare, Senhor Sales. Henrique está maçado porque eu lhe acabei de provar que lhe queria mais bem a ele, do que ele a mim. O Senhor tem sido testemunha; quando ele não está em casa fico tão aborrecida que não dou fé de cousa alguma.
Sales — É verdade, tenho observado isso.
Henrique — Também eu de agora em diante pretendo observar, Senhor Sales.
Clarinha — E a minha aposta? Quantas janelas têm o hotel?
Sales — Contei quinze, se não me engano, D. Clarinha.
Clarinha — Bravo!... (A Henrique) Perdeu, meu Senhor! Não se lembra? (A Sales) Foi uma aposta muito interessante. Se eu ganhasse, Henrique ficava obrigado a viver um ano inteiro unicamente para mim, não receberíamos visitas; não sairíamos senão juntos.
Sales — E quando ele sair para negócios?
Clarinha — Oh! Fique descansado, Senhor Sales! Durante este ano ele não tem negócios. (A Henrique) Está disposto a cumprir?
Henrique — Como! Ainda que eu não perdesse. Era minha intenção.
Clarinha — Que fineza que lhe devo, Senhor Sales!
Sales — Nem por isso, minha Senhora.
Clarinha — O Senhor não faz idéia! Vou passar o ano mais feliz da minha vida! Viver só para meu marido... Quando Henrique quiser trabalhar, irei cuidar dos arranjos da minha casa, do jardim. Ah! por falar em jardim... O Senhor esqueceu ontem um ramo de flores.
Sales — Um ramo de flores?... Não, Senhora; não me recordo!...
Clarinha (toca a campainha) — Joaquim o achou esta manha no jardim. (Entra um escravo) Chama Joaquim. (A Sales) A pessoa a quem o Senhor o destinava não lhe há de perdoar semelhante esquecimento.
Sales — Não o destinava a ninguém. Deram-me e não tinha nem um apreço para mim.
Clarinha (a Joaquim) — Entrega o ramo do Senhor Sales.
Sales — Não precisa. (Joaquim entrega)
Clarinha — Inda pode aproveitá-lo. É bom guardar! (Joaquim sai) O Senhor não sabe que desgraça ia causando esse ramo inocente.
Henrique (a meia voz) — Clarinha!
Clarinha — O Senhor Sales é de segredo. (A Sales) Eu lhe conto. Henrique chegou da caça e estava no jardim conversando, quando não sei como tropeçou no seu ramo. A espingarda embaraçou-se no bolso do paletó e disparou!
Sales — Estava carregada?
Henrique — E com um quarto de bala, Senhor Sales.
Clarinha — É verdade! Foi um estrondo. A bala atravessou de banda a banda a cabana... Aquela, o Senhor sabe, que há no jardim. Se estivesse dentro alguma pessoa, morria decerto.
Henrique — Quando o Senhor sair examine por fora que há de ver o rombo.
Sales — Acredito, não é necessário.
Clarinha — Foi uma felicidade ter eu fechado a cabana logo que o Senhor saiu, e dado a chave a Henrique, senão podia alguém entrar e acontecer uma desgraça.
Sales — Que perigo!... A Senhora me dá licença?
Clarinha — Pois não!.... Mas agora é que reparo; o Senhor está hoje tão pálido, Senhor Sales.
Sales — Não é nada, minha Senhora. É o meu natural.
Clarinha — Não;
o Senhor anda doente. Aconselho-lhe que faça outra viagem à Europa.
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.