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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Manuel que de dentro ouvira a altercação, saiu fora no alpendre movido por infantil curiosidade. Seu pai, de pé nos degraus da escada, aproveitando um instante em que os castelhanos se consultavam entre si, voltou-se para o gauchito: 

— Corre; diz ao homem que fuja para a estância! Um cavalo selado, no quintal, já!… Tua mãe que feche a porta; eu os entretenho por cá; ele que se musque! 

Estas palavras, rápidas e impetuosas, foram lançadas à meia voz no ouvido do menino, que de seu próprio impulso, e empurrado pela mão sôfrega do pai, ganhou de um salto a porta. 

Era o tempo em que os castelhanos havendo tomado partido, caminhavam para o alpendre em atitude ameaçadora. O Canho recuou, mas para alcançar de um pulo o canto onde estavam seus arreios. Travando das correias das bolas, que tangidas pelo braço robusto, giraram como um remoinho em volta da cabeça, caiu sobre os adversários. 

Os orientais, já senhores do alpendre, fugiram para o terreiro com medo de serem esmagados pela arma terrível. Em pé sobre a escada, o Canho os dominava outra vez, e repelia com vantagem os repetidos ataques. 

Um dos orientais, armado de uma lança, no momento de subir ao alpendre, correra à janela com o intuito de penetrar na casa. Quando Canho voltou-se armado com as bolas, atento ao movimento dos outros adversários, não viu aquele que lhe ficava de esguelha e se havia encolhido.  

Por algum tempo, durante a luta dos outros, ele forcejou para arrombar a janela; vendo, porém, que João Canho levava de vencida diante de si pela ladeira abaixo os outros já bem maltratados, mudou de plano. Agachou-se por detrás do parapeito, com a lança pronta. 

Desejara Manuel depois que deu o recado voltar para junto do pai; porém, não consentiu a mãe, que fechou a porta, tirando a chave. Espreitavam ambos pelo olho da fechadura o que se passava fora, quando o menino avistou o oriental agachado. 

— Ele vai atacar o pai! exclamou o menino. 

A mesma idéia da emboscada atravessou o espírito da mulher, que abriu de repente a porta. Manuel precipitou-se armado com uma faca imensa, e chegando defronte o oriental, disse-lhe com raiva: 

— Eu te mato! 

Não se mexeu o oriental; ficou na mesma posição; apenas fez um gesto breve ameaçando o menino com a lança; porém este, longe de fugir, encarou com o sujeito, receando que se sumisse, antes de o pai chegar. 

João Canho voltava da coça  que dera nos castelhanos, os quais ainda o seguiam de longe, mas para apanharem os animais e safarem-se. Nisto Francisca, debruçada no alpendre e trêmula de susto, soltou um grande brado para advertir o marido do perigo dela e do filho, ameaçados pelo sujeito agachado. 

— Corre, João! 

Vendo o oriental frustrado seu intento de surpreender o adversário, ergueu-se para ganhar o terreiro e escamar-se. Mas João Canho, pensando que o grito da mulher era para adverti-lo da volta dos castelhanos por ele repelidos, voltara-se rapidamente e pusera-se em defesa, espreitando onde poderiam estar os assaltantes. 

Aproveitou-se o oriental desse engano; de um salto caiu no terreiro e cravou a lança nas costas de João Canho. Ferido, o amansador soltou um rugido medonho, e voltou-se com tal sanha, que o oriental espavorido pulou no cavalo e desapareceu. 

Quando ele sumia-se com os companheiros, o amansador expirava nos braços da mulher. 

Manuel em pé, ao lado daquele grupo fúnebre, segurava maquinalmente a lança assassina, que tinham acabado de arrancar da ferida. Foi nessa posição, com os dentes rangidos e os lábios crespos de cólera, que ele recebeu a extrema bênção do pai. 

 

III 

O PADRASTO 

 

 Nunca soube-se com certeza da causa por que os quatro castelhanos perseguiam Loureiro. Mais tarde este deu algumas explicações, a instâncias dos amigos; porém notava-se na história por ele contada sensível lacuna, e muita confusão. 

Estabelecido com negócio de fazenda em Alegrete, fora Loureiro até o Salto para comprar um sortimento de mercadorias de que precisava sua loja. Aproveitou a ocasião para ver Concórdia, cidade argentina que fica na margem ocidental do Uruguai. 

Demorando-se alguns dias na pousada, se travou de razões com um sujeito de nome Barreda, capataz de uma estância de Entre-Rios, que aí estava também de volta de Buenos Aires. Resultou da altercação desafiar o castelhano a Loureiro, que achou mais prudente mudar de ares. 

Voltou imediatamente ao Salto, e mandando sua bagagem por Uruguaiana, tomou em direção a Bagé, onde tinha umas cobranças que fazer. Seguia seu caminho quando, chegando ao alto de uma coxilha, disse o peão: 

— Aqueles vêm com pressa! 

(continua...)

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