Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Vá descansado – emendou a autoridade com o seu sorriso inteligente, habitual. – Se o homem estiver em Calvos, amanhã a esta hora há-de estar na cadeia de Braga.

Pela meia-noite deste dia, saiu do quartel do Pópulo uma escolta de infantaria 8, que chegou a São Gens ao apontar da manhã. Era guiada por um prático sabedor das avenidas da residência abacial, um sócio convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que devastara o concelho da Póvoa em 34, e saboreava agora na policia secreta uma qualquer prebenda honestamente ganha. Ele dispôs a soldadesca à volta da casa, debaixo das janelas, rente ao muro do passal, e mostrou ao sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do arvoredo se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das coronhadas à porta principal, e uns berros formidáveis:

– Abra! abra! senão vai dentro a porta!

O abade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um cordão de soldados, a olharem para as janelas, e com as baionetas nas espingardas. Correu descalço para a sala contígua à alcova do hóspede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as calças, quase às escuras, com a respiração ansiada.

– Que é? – regougou o homem numa estrangulação de susto, muito ofegante.

– Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder Vossa Majestade na adega antes que arrombem a porta.

As coronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra de Inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A Senhorinha, muito esganiçada, expectorava agudos ais na cozinha; não acertava a enfiar o saiote pelo direito. Os cães de Castro Laboreiro, muito ferozes, arremetiam às portas com a dentuça refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua Mãe Santíssima e a alma da tia Jacinta do Reimundles, que estava inteira na igreja. Dois criados da lavoura, estranhos ao segredo do real hóspede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender; enterraram-se nos fenos do palheiro, prometendo esmolas de quartinho ao Bom Jesus do Monte e ao mártile São Trocatles, se os livrassem daquela. Entretanto, o outro, de chinelos de tapete, guiado pela mão do abade até à cozinha, passou daqui para a adega, que a criada abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por duas pipas vazias, postas ao alto; pela convexidade das aduelas e entre as pipas e a parede, abria-se um vácuo onde cabia à vontade um homem. O abade muito aflito:

– Suba depressa Vossa Majestade que eu ajudo por cima das pipas e deixe-se escorregar para o lado de lá. Cosa-se bem com a parede; se vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor!

O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela parede, as teias de aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam, enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Ele sacudia-as, cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rojos de ratazanas por debaixo das pipas, e lá fora o rodar das portas que se escancaravam com estridor.

Em cima, o sargento e três soldados entraram e examinaram vagarosamente os quartos e recantos. – Senhor Abade, ponha para aqui o rei – disse o sargento, um farsola, o Pílula do 8 – queremos o rei e algumas botijas de genebra. A garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o Sr. D. Miguel, que lhe queremos fazer uma saúde.

– O senhor está a mangar! – disse o abade afinando pelo tom da chalaça. – Genebra, se a querem, dou-lha; mas a respeito de rei, só lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.

– Pois sim, traga o rei de copas, e não será mau que ponha em guarda também o ás do mesmo naipe.

– Dá-se-lhe já duas biqueiras neste padreca, ó meu sargento! – propôs o 24.

– Deixa ver se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, Senhor Abade, vamos à genebra, à adega. Mexa-se.

– A genebra está cá em cima – observou o abade um pouco enfiado.

– Mande-a ir para baixo, que é mais fresco. Mexa-se, mexa-se que temos pressa.

Abra a porta da adega.

– Sim, senhor, abro tudo o que vossemecê quiser –resoluto, com um ar irónico de condescendência, sem receio. – Os senhores têm coisas! Onde diabo procuram o Sr. D. Miguel! – E descia, pedindo a chave à Senhorinha.

A criada demorava-se a procurá-la, a fingir; e o sargento:

– Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24, vai buscar um machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!

– Não é preciso, camarada – acudiu o abade. – Aqui está a chave. Eu abro. Entrem, procurem à vontade.

O sargento parou à porta a familiarizar-se com a escassa luz da adega:

– Ó padre! isto aqui é que é a sala do trono? ou é o subterrâneo da inquisição? Mande lá acender uma candeia, se não tem um archote.

– Ó mulher, traz dai uma placa acesa– disse o abade Marcos, contrafazendo o seu terror.

E o homem, lá dentro atrás das pipas, tiritava como Heliogábalo na latrina, seu derradeiro refúgio.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2526272829...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →