Por Aluísio Azevedo (1882)
De uma feita, o comendador Ascole e o Dr. Figueiredo Magalhães, que sentiam pelo Tubarão o interesse que experimentamos por um belo fenômeno, quiseram medir-lhe toda a extensão da força de um dos seus socos e para isso puseram à disposição dele um desses dinamômetros, vulgarmente conhecidos pelo nome de "Cabeça de turco".
O Tubarão negou-se a princípio, sorrindo com o seu ar de bondade ingênua, mas, instigado pelos outros, deu um passo atrás, recolheu vagarosamente o braço e depois disparou com este um formidável murro contra a almofada de marroquim.
Ouviu-se apenas um ranger e estalar de ferros. E a balança caiu aos pés do Tubarão, em pedaços.
De uma outra vez, querendo Tubarão arrancar um gancho da parede, pôslhe a mão e puxou; mas o gancho estava bem seguro e fez resistência. Tubarão firmou um pé contra o muro e empregou toda a força. Veio o gancho afinal, mas Tubarão havia varado a parede com a perna.
Como esses, mil outros fatos diziam a riqueza dos seus músculos; contudo, não havia homem que menos gostasse de brigar. Sofria às vezes em silêncio as mais grosseiras provocações, aconselhava quase sempre ao adversário que o deixasse em paz e recorria a todos os meios para evitar o choque; até que por fim lhe faltava a paciência e com um murro mandava o provocador passear a dez metros de distância.
As suas relações com o Talha-certo vinham de certa vez em que Tubarão o encontrou no meio de seis urbanos, a tomar bordoada de todos eles. Meteu-se logo no barulho, escudou com o corpo o que apanhava, e despediu os outros a pontapés.
Desde então ficaram amigos. Todavia muito se dissimilavam no caráter: Talha-certo era mau, tinha maus instintos, gostava de perseguir, abusava da navalha e vendia-se para qualquer crime; o outro não: arriscava-se quase sempre para socorrer alguém; ressentia-se, é verdade, do meio em que vivia ultimamente e da falta de educação, mas era dedicado e susceptível de brio.
O companheiro, sabendo que ele nunca abanava as orelhas quando qualquer colega pedia o seu auxílio, contava com esse apoio certo, e tal confiança o tornava mais atrevido e mais impertinente.
— Mas o que quer você de mim?... perguntara Tubarão ao outro, naquela noite em que os vimos a conversar no café de Java.
— Quero que você me ajude...
— Em quê?...
— Na função do Pedro Ruivo!
— Ah! O Pedro Ruivo está aí?! Ora até que afinal o vou pilhar às direitas! Deixa estar que não me escaparás desta vez, grande velhaco!
Estas exclamações do Tubarão significavam que entre ele e o Ruivo havia sem dúvida contas velhas a ajustar.
— Sim! disse o Talha-certo; mas o patrão quer ver-se livre dele por uma vez!
— Quer que o mates? perguntou o outro.
— É! Falou-me nisso, Você sabe que o Ruivo tem em seu poder aqueles documentos do comendador e pode pregar-lhe alguma peça!...
— Mas tomam-se-lhe os documentos, e não é lá preciso matar o pobre diabo!...
— Como não é preciso?... Você sabe quem é o Ruivo! Homem, quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre!...
— Não é tanto assim. Pode arranjar-se tudo sem sangue! Eu me encarrego de arrancar-lhe os documentos! Deixe-o comigo!
— Isso não basta! segredou-lhe o Talha-certo. Se lhe estou a dizer que o comendador se quer desfazer daquela bisca!...
Pois então vá você e mais seu patrão para o inferno! Cá por mim não vejo necessidade alguma de matar aquele pedaço de asno!
— Ah! Eu cuidei que você ainda era o mesmo para ajudar os companheiros!... Neste caso, porém, fica o dito por não dito! Ora adeus!
— Espere, homem! Eu estou disposto a ajudá-lo! Você bem sabe que nunca desamparei os amigos! Mas, com os diabos! o que não vejo é necessidade de matar ninguém! Se a gente só precisa dos papéis, para que lhe dá de tirar também a vida?!.
— Para maior segurança! Mas uma vez que você põe dificuldades, já cá não está quem falou! Não se trata mais disto!
— Não! eu vou! Vou para o que der e vier, porém achava melhor não sangrar o sujeito...
E quando os dois súcios se levantaram da mesinha do café, estavam perfeitamente combinados.
Pedro Ruivo costumava sair às seis e meia do trabalho, Talha-certo sabia a direção que ele tomava sempre e iria esperá-lo no melhor ponto para um ataque. E estava convencido de que uma vez assassinado o Ruivo, os tais documentos, presumidos em seu poder, perderiam todo o valor, porque só por ele podiam ser explorados.
Antes, porém, de pormenorizarmos o resultado daquele conchavo, temos que dizer alguma coisa a respeito de Tubarão.
Leão Vermelho, ainda no começo da sua carreira marítima, distinguia, a bordo da corveta em que estava, um grumete de dezesseis anos. vivo, dedicado e forte; quando mais tarde Leão Vermelho ganhou as suas dragonas de 1o tenente e mudou de navio levou consigo o rapaz e tomou-o para seu criado.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.