Por Aluísio Azevedo (1884)
Mas Filomena declarou logo que não se sentia disposta, por coisa alguma, a passar a sua lua de mel enterrada num quarto de hospedaria. Não foi para isso que viera à Espanha! Queria um sítio pitoresco, ignorado, poético, silencioso... O marido que tivesse paciência; ela, porém, não descansaria antes de encontrar um lugarzinho nessas condições.
— Pois tranqüiliza-te, que, custe o que custar, havemos de descobri-lo, respondeu o Borges. Já agora, com mais um empurrão leva-se a caixa ao porão!
Durante esse diálogo, o estalajadeiro carregou pelo melhor os seus animais com a bagagem dos fugitivos. E os três, seguidos das cavalgaduras, puseram-se corajosamente a caminho, dispostos a não acampar, sem terem descoberto o tal sítio indispensável para os amores de Filomena.
CAPÍTULO VII
ENFIM
Foram dar com os ossos a Cordova, num destroço de castelo árabe, construído à margem de um braço do Guadalquivir, ainda nos tempos do domínio muçulmano, e em cujas ruínas se aboletavam agora os pescadores do lugar e um ou outro gitano, que a fome e a fadiga trouxessem de rastros até aí.
Filomena ficou arrebatada; confessou que o lugar não podia ser melhor para uma lua de mel e resolveu instalar-se nas ruínas.
— Que?! exclamou o Borges, assustando-se. Ficar aqui?! Ficar neste covil de vagabundos?!.. — Ora, qual! A mulher com certeza estava gracejando!
— Não! disse ela, sem se alterar, não gracejo, nem admito que te queiras fazer insensível a estas magnificências do belo! Olha! Contempla estas abóbadas lascadas, tudo isto é maravilhoso! Onde mas tu descobrir um lugar mais propício aos nossos amores?...
Borges ainda tentou despersuadi-la de semelhante idéia. Opôs-lhe os mais sensatos argumentos, apresentou-lhe com todo o peso de seu bom senso os inconvenientes que os esperavam — o sol, a chuva, os mosquitos, os insetos venenosos, talvez a morte nas mãos daqueles bárbaros! Filomena que pensasse um instante, que refletisse um momento, antes de dar aquele passo! porém, nada obteve — a mulher não cedia uma polegada; e o infeliz, disfarçando o seu desgosto e auxiliado pelo cantonalista, procurou entrar em bom acordo com os pescadores.
Tudo arranjado pelo melhor que foi possível, o estalajadeiro descansou um pouco, depois embolsou a recompensa de seus trabalhos e a indenização de seus prejuízos, abraçou o suposto correligionário, jurou ainda uma vez que estaria sempre disposto a derramar a última gota de sangue pela pátria, e afinal retirou-se.
O Borges então cuidou de resignar-se às circunstâncias. Aquele capricho da mulher não poderia deitar muito longe! ... Que a deixassem lá com as suas ruínas, o primeiro pé d'água que caísse havia de ensiná-la!...
Contudo, aí ficaram três semanas, expostos ao sol e ao sereno, quase ao relento, alimentando-se sabe Deus como, e dormindo sob as velhas abóbadas lascadas e cheias de verdura. Felizmente tinham consigo alguma roupa, uma boa mala e ainda bastante dinheiro.
Foi aí, nesse canto ignorado da velha Espanha despojada, ao ciciar das brisas do Guadalquivir e à sombra murmurosa dos gigantescos loureiros e dos sicômoros, que Filomena se identificou pela primeira vez com o marido. E fê-lo sem a mais leve reserva, nem o mais ligeiro rebuço, chegando até a amá-lo com transporte, com delírio, chamando-lhe "seu raptor, seu amante!" Refugiando-se nos braços dele, cheia de ternura e de medo, unidos, sobressaltados, como dois criminosos que ardessem na chama da mesma paixão clandestina,
O bom homem não desejava melhor; "assim não fosse ela tão caprichosa"!
Filomena agora o obrigava a longos passeios por entre canaviais bravios por entre matagais de cactos, escolhendo lugares difíceis, quase intransitáveis, onde às vezes era preciso que ele a carregasse nos ombros para vadear pequenos regatos, coalhados de nenúfares, ou levá-la ao colo pelo meio de barrancos perigosos, cobertos de limo e salsas espinhosas. Outras vezes lhes sucedia perderem-se, e os dois tinham de descansar sobre a relva, sofrendo sede e fome, sempre foragidos, evitando as vistas de quem quer que fosse, como se fugissem de inimigos implacáveis.
Borges, temendo contrariá-la, submetia-se a tudo isso de cara alegre. Fingia desfrutar o mesmo encanto que ela desfrutava; fazia-se entusiasmado pela natureza, amando as águas do regato, admirando os passarinhos, correndo atrás das borboletas e deitando-se de bruços à beira do rio; o queixo na palma das mãos, a balbuciar versos; os olhos perdidos no serpentear monótono da corrente.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.