Por José de Alencar (1878)
O Teixeira, que o ouviu, incomodou-se; e receou talvez o agouro daquela dúvida. Entretanto ele acabava de conversar com o amigo; e embora na sua qualidade de médico calcasse na cicatriz dessa alma para conhecer se doía-se ainda do golpe, não descobriu a menor perplexidade no espírito de Hermano. A sua resolução era firme e calma; tinha sido friamente meditada, não provinha de um assomo de momento.
No dia seguinte começaram os preparos do casamento, que por parte de Amália já estavam adiantados. Desde a apresentação de Hermano em sua casa D. Felícia, vira nele o marido que tanto desejava para a filha; e por isso a pretexto de arranjos de viagem, o que ela tinha encomendado às costureiras e modistas era um rico enxoval de noiva, já quase pronto.
Por parte do noivo também não havia muito que fazer. A casa estava pronta; e não faltava senão a pintura, pois ainda conservava a primitiva que recebera por ocasião do primeiro casamento. Isso e a substituição dos móveis era negócio para um mês.
Amália acompanhou de longe e com indiferença esses pormenores domésticos, que têm geralmente um especial encanto para os noivos, como primícias que são da vida conjugal, e flores de uma primavera casta e serena.
A moça tinha outra preocupação mais séria, que absorvia a sua solicitude. Observava o noivo e estudava a sua alma, atenta ao menor sintoma de desfalecimento que porventura se manifestasse na sua resolução. O que ela temia sobretudo era um erro fatal.
“ — Se depois de unidos para sempre a sua alma separar-se de mim, eu serei um obstáculo, um tormento para sua existência. Longe, nunca mais deixará de amar-me; entretanto, como meu marido, pode até odiar-me.”
Esta reflexão íntima revela o que se passava em Amália. O seu tempo de noiva, que para as outras é o idílio suave de um amor partilhado, para ela foi todo cheio de inquietações, de sustos e de graves pensamentos.
Ela velava sobre o seu futuro, guardando-se para mais tarde gozar sem receios de sua felicidade, se Deus a abençoasse.
Poucos dias antes da época marcada para o casamento, D. Felícia, a pedido do noivo, fez com a filha uma visita à casa que já se achava preparada. Nessa ocasião Amália foi assaltada por uma idéia que ainda não lhe tinha ocorrido, e que a fez estremecer.
A mãe falara do seu toucador e quarto de dormir. Estas palavras desenharam em seu espírito pela primeira vez a realidade doméstica de sua futura posição naquela casa. Ela vinha substituir outra mulher que ali fora dona e senhora antes dela.
Seus aposentos seriam os mesmos aposentos de Julieta, fechados desde a morte desta e respeitados durante cinco anos como um santuário?
E teria ela, Amália, a coragem de profaná-los como o fizera uma dessas mulheres, que não conhecem a santidade da família?
Capítulo 14
Depois de pequena demora na sala, Hermano convidou as senhoras para verem o interior da casa.
— Em primeiro lugar o toucador, disse D. Felícia, que pretendia aferir a ventura da filha pelo luxo desse aposento especial.
Amália que passara adiante dirigia-se para o lado do edifício em que ela sabia desde muito achar-se a sala que servira de toucador a Julieta. Hermano, porém, adiantou-se com visível precipitação e tomou-lhe a passagem.
— Por aqui, Amália, disse ele um tanto perturbado e indicando com o gesto a direção oposta.
Aí estavam efetivamente os aposentos da noiva, onde a arte reunira todas as comodidades domésticas sob a forma mais graciosa, dando à riqueza dos móveis os realces da elegância.
Enquanto D. Felícia regozijava-se com esse luxo, que esperava encontrar, e distribuía os seus elogios a cada peça, Amália observava silenciosamente, estudando com uma prevenção que não podia vencer o aspecto e arranjo do aposento que lhe estava destinado.
A primeira circunstância que provocou sua atenção foi o contraste saliente deste toucador com o outro, o anterior, que ela vira a primeira vez quando menina, e tornara a ver ultimamente.
Apesar de corresponder exatamente a repartição das duas asas do edifício e de terem portanto as salas o mesmo plano e as mesmas dimensões, tão opostas eram no adereço e arranjo que denunciavam o propósito de torná-los o mais diferente que fosse possível.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.