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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Enquanto não se fechava o negócio, era preciso guardar o segredo. Compreende? Hein? 

Maganão!... 

E Lemos beliscou o braço de Seixas, o que era uma das mais significativas demonstrações de sua amizade. 

Por meio da noite, a moça ao atravessar a sala quando voltava de despedir-se de uma senhora, viu Seixas recostado a uma janela, pela parte de fora. 

A pretexto de fumar, o moço tinha saído ao jardim; e para de todo não seqüestrar-se da sociedade, tomara aquela posição da qual parecia acompanhar com a vista o que se fazia na sala; mas era como se ali não estivesse pela preocupação que nesse momento o reconcentrava. 

Essa primeira pausa que lhe deixavam os deveres da sociedade de pois da entrada de Aurélia na sala, seu pensamento a aproveitou para bem compenetrar-se dos fatos que acabavam de passar e aos quais buscava uma causa ou uma explicação. 

A moça a pretexto de olhar para o céu veio debruçar-se à mesma janela:

- Está tão retirado! Também cultiva as estrelas? 

- Quais? As do céu? 

- Pois há outras? 

- Nunca lho disseram? 

- Talvez alguém se lembrasse disso; mas ainda não achei quem mo fizesse acreditar, respondeu a moça com um sorriso. 

Seixas calou-se. Seu espírito além de pouco propenso a esses torneios da palavra, estava cativo de uma idéia importuna. 

- Quem sabe se vim perturbar alguma visão encantadora? Insistiu Aurélia. 

- Não a tenho. Estava pensando nos caprichos da fortuna que me trouxe esta noite à sua casa. É isto uma graça ou uma ironia da sorte? A senhora é quem poderá dizer-me. 

Aurélia desatou a rir: 

- Era preciso que eu estivesse na intimidade dessa senhora, para conhecer-lhe as intenções; e apesar de muita gente considerar-me uma de suas prediletas, acredite que no fundo não gostamos. 

Isto disse-o a moça galanteando; mas logo ficou séria e prosseguiu: 

- O que eu compreendo dessas palavras é que o Sr. Seixas arrependeu-se de não haver empregado melhor seu tempo. 

- E tenho eu o direito de arrepender-me! Disso o moço em voz baixa, como temendo 

que ouvissem. 

- Como está misterioso, meu Deus! Não fala senão por enigmas. Confesso que não o entendo. Carece alguém de direito para arrepender-se de uma coisa tão simples como uma visita! 

- Tem razão, D. Aurélia. Desculpe; ainda não me recobrei da surpresa. Vindo a esta casa, não esperava encontrá-la. Estava longe de pensar... 

- Tanto lhe desagradou o encontro? Perguntou Aurélia sorrindo. 

- Se eu ainda acreditasse em felicidade, diria que ela me tinha sorrido. 

- E por que descreu? 

Seixas fitou um olhar melancólico no semblante da moça: 

- Que interesse lhe pode isso inspirar?... Questão de gênio; a alguns nunca a esperança os abandona, a outros falta de todo a fé, e desanimam com a menor decepção. E a senhora, D. Aurélia? Há pouco ouvi-lhe uma alusão; foi de certo gracejo! Diga-me, é feliz? 

- Creio que sim; pelo menos todos o afirmam, e eu não posso ter a presunção de conhecer melhor o mundo do que tantas pessoas mais sabedoras e experientes que a minha cabecinha de vento. Assim, para não desmentir a opinião geral, considero-me a mais ditosa moça do Rio de Janeiro. Todos os meus caprichos são logo satisfeitos; não formo um desejo que não o veja realizado. Por toda a parte cercam-me de adorações e louvores que eu não mereço, e que por isso mesmo se tornam mais lisonjeiros. 

- Nada lhe falta portanto. 

- Diz meu tutor que me falta um marido; e ele incumbiu-se de o escolher. 

- Qualquer?... É-lhe isto indiferente? Perguntou Seixas sorrindo. 

- Está entendido que só aceitarei o que me agradar; mas não quero ter o aborrecimento de ocupar-me com semelhante assunto. 

- Tão pouco lhe interessa! 

- Ao contrário; tanto receio que tenho de comprometer eu mesma o meu futuro, que o confio à sorte. Deus proverá. 

(continua...)

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