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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Isabel — Isto significa que quando eu voltar, as pazes estarão feitas.



CENA VII

Henrique e Clarinha

Clarinha — Estou à espera, meu Senhor.

Henrique — Se isto é uma comédia, acho-a de mau gosto.

Clarinha — Não se trata de comédia: estou na presença de meu juiz, se não me engano isto se chama um processo.

Henrique — Acabemos de uma vez. Este papel...

Clarinha — Estou vendo: é um bilhete do Senhor Sales.

Henrique — Que esteve tão amável estes dois dias...

Clarinha — Como se lembra do que lhe disse!... E fiz-lhe a injustiça de supor que a minha conversação o aborrecia!

Henrique — A Senhora sabe a quem escreveu esse... homem?

Clarinha — Se não é muita fatuidade de minha parte, creio que foi a esta sua criada.

Henrique — Ainda o confessa?...

Clarinha — Suponho que o Senhor deseja saber a verdade; se quer que o engane é escusado perguntar.

Henrique — Como veio este papel parar às suas mãos?

Clarinha — Achei-o ontem dentro do meu chapéu num ramo de flores. Não está mal escrito, não?

Henrique — Senhora!... Não me faça perder a calma de que tanto preciso nesta ocasião. Não brinque com a desgraça de uma família inteira!... Sabe de que excessos é capaz um homem de brio para vingar a sua honra ultrajada?...

Clarinha — Já esperava por isso. É o discurso de rigor! Sei de que é capaz, meu Senhor; sei que me quis matar ontem...

Henrique — Quem lho disse?

Clarinha — Talvez ainda lhe venham tentações de o fazer. Mas pensa que tenho medo de seus tiros e de seus furores?... Não! Do que eu tenho medo... E o Senhor não o merece!... Do que eu tenho medo é de que se esqueça de mim e deixe de querer-me bem.

Henrique — Eu lhe suplico! Seja franca; diga-me toda a verdade, Clarinha.

Clarinha — Muito bem! Eis uma palavra que muda as posições: já não está aqui o juiz; é meu marido! Agora, sim Senhor, tenha a bondade de ouvir-me. Eu podia punir como toda a Senhora honesta deve fazer, a insolência daquele homem, sem que o Senhor o soubesse; mas quis que aprendesse à sua custa. O Sales não teria a audácia de escrever-me se visse que meu marido me amava e que eu vivia feliz.

Henrique — Eu não te amo, Clarinha?... Podes duvidar?

Clarinha — Há quanto tempo não mo dizias?... É uma palavra que nunca se repete demais à sua mulher...

Henrique — E para isso era preciso me fazeres sofrer tanto? Ainda tremo!

Clarinha — Oh! Já me arrependi! Confesso que foi uma imprudência. Que desgraça não ia acontecendo; a desgraça de minha vida inteira! Se Bela morresse!...

Henrique — E tu, Clarinha!

Clarinha — Eu?... Pouco se perdia; o Senhor depressa se consolaria.

Henrique — Ingrata!

Clarinha Quem me chama! Quem acreditou que eu o enganava, e me quis matar!

Henrique — Não me lembres mais essa loucura, eu te peço.

Clarinha — Por que razão?... Se não a tivesse feito, creio que não te quereria tanto, como te quero agora.

Henrique — Mas, era um crime, Clarinha.

Clarinha — Um crime por muito amor! Que mulher não o perdoa!



CENA VIII

Os mesmos e Joaquim

Joaquim — Está aí o Sr. Sales.

Henrique — Ah!... tão cedo.

Joaquim — Ele disse que Nhanhã D. Clarinha pediu para passar hoje por aqui.

Clarinha — É verdade.

Henrique (a meia voz) — A farsa é divertida; mas não estou disposto a representar nela o jocoso papel que me destina. Ouviu, Senhora?

Clarinha (a meia voz) — Ouvi, Senhor, e já lhe respondo. (Alto) Joaquim, vai buscar o ramo de violetas que achaste no jardim. (Baixo a Henrique) Não quer que lhe traga também a espingarda?... É prudente; talvez esteja carregada! (Joaquim tem saído)

Henrique — Basta de zombarias.

Clarinha — Perdão; o gracejo terminou; agora sou eu que lhe falo seriamente. Se a minha palavra não lhe basta e é preciso que eu desça a explicações, vou satisfazêlo já. Porem acredite!... É a sua honra unicamente que eu justificarei; a minha não existe desde o momento que duvidou dela.

Henrique — Não duvido, Clarinha, mas quando tudo parece combinar-se de propósito para me iludir, o que posso eu fazer?

Clarinha — Usar do seu direito; exigir que me justifique.

Henrique — Não supunha que te amava tanto! A menor cousa me faz tremer agora pela minha felicidade.

(continua...)

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