Por José de Alencar (1870)
Não se explica semelhante aberração. Talvez que algumas particularidades da infância de Manuel aventem a razão desse teor d’alma tão avesso da natureza.
Eis o que referiam sobre a família e a infância do gaúcho.
João Canho, pai de Manuel, era o primeiro amansador ou peão de toda aquela campanha; à sua destreza em montar e governar o animal com qualquer das mãos deveu ele o apelido que adotou por nome.
Servira o amansador com Bento Gonçalves na campanha da Cisplatina; pelejara corajosamente em vários combates; e depois de feita a paz, viera estabelecer-se com sua mulher e dois filhos em Ponche-Verde, onde vivia pobremente de sua arte, à qual juntava a perícia de ferrador e alveitar.
Aos oito anos já sentia-se Manuel orgulhoso das proezas do pai. Quando ouvia o antigo soldado recordar suas campanhas e contar as valentia que praticara com um camarada de nome Lucas, do qual sempre se lembrava com saudades; quando sobretudo via o potro mais terrível subjugado em um momento pelo destemido peão, o gauchito enchia-se de admiração.
Não fossem falar de façanhas de heróis, que ele as desdenharia por certo. Não havia para o menino outra glória senão aquela; nada no mundo se podia comparar, no espírito do filho, à fama do pai.
A alma do menino foi-se moldando naturalmente pelo que admirava. A vida de peão inspirava-lhe entusiasmo. O baguá era para ele o símbolo da força e da fereza; domar o cavalo selvagem, o filho indômito dos pampas, significava o maior triunfo a que podia aspirar o homem. O amansador era o rei do deserto.
Ao mesmo tempo, sempre em contato com a raça eqüina, revelava-se a seu espírito infantil as grandes qualidades desse animal de paixões nobres e generosas, capaz das maiores dedicações, intrépido, sóbrio, leal, paciente na ocasião do sacrifício, impetuoso no momento do perigo.
O menino sentia em si essa mesma natureza, o germe daquelas virtudes, e assim gradualmente ia-se operando em seu caráter uma espécie de identificação entre o cavalo e o cavaleiro. Era a misteriosa formação do centauro.
No meio dessa existência tranqüila, a asa negra da desgraça roçou pela casa de João Canho.
Foi em maio de 1820.
Estava o amansador uma tarde pitando no alpendre, enquanto a mulher ninava ao colo o Juquinha, o último filho. Viu João aproximar-se um cavaleiro à disparada, e pouco depois esbarrar no terreiro. apeou-se rápido e correu para o gaúcho.
— Não me conhece, amigo?
O Canho surpreso respondeu:
— Pode ser; mas não me recordo.
— Sou o Loureiro, de Alegrete. Venho do Salto; os castelhanos juraram empalar-me, e me vêm no encalço. Estou perdido se o amigo não me der um abrigo.
— Entre, senhor; esta casa está a seu dispor.
— Mas se eles souberem que eu me refugiei aqui, não lhes poderei escapar.
— Fique descansado.
Entrou o Loureiro, a quem Francisca, pela recomendação do marido, agasalhou o melhor que pôde. Entretanto João Canho, em pé no alpendre, olhava o horizonte onde aparecia ao longe um ponto que vinha crescendo. Eram sem dúvida os castelhanos.
Pouco depois apearam-se quatro gaúchos orientais. Um deles, mais apressado, tomou a mão:
— Está em sua casa, amigo, um homem de Alegrete, que chegou neste instante. Queremos falar-lhe!
João hesitou um momento, se devia negar a presença do Loureiro em sua casa. Repugnava-lhe mentir; tanto mais quanto essa mentira era inútil. Os castelhanos tinham naturalmente visto na poeira o rasto fresco do animal.
— O homem está aí dentro, senhores. Agora o falar-lhe, é outra coisa. A que respeito?
— Sobre um negócio urgente.
— Mas qual é?
— Ele sabe.
— Ah! é o negócio que ele sabe? disse o Canho sorrindo.
— Justo!
Pois esse pediu-me ele que o tratasse em seu nome.
— E o amigo aceitou?
— Por que não? Estou pronto sempre a servir um patrício.
— Pois olhe, desta feita não andou bem, asseguro-lhe.
— Veremos.
Os castelhanos se impacientavam, cruzando entre si olhares suspeitos.
— Vamos ter com o homem.
Atravessou-se na frente o João Canho com ar resoluto.
— Senhores, o homem está descansando. Se querem fazer outro tanto, ali está o rancho.
— Falemos claro, amigo. Viemos à caça do sujeito, e por força que o havemos de levar.
— Daqui desta casa, não; salvo se ele mesmo quiser ir.
— Veja que somos quatro, e estamos disposto a ir às do cabo.
— Ainda que fossem vinte. Nesta casa ninguém entra sem licença de seu dono, e este sou eu para os servir, senhores.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.