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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Poderá... Mas quem lho diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar da morte dos homens.

— Pode ser que não; e ainda que desconfiem, não há testemunhas. O pai disse que não tinha medo nenhum. O que for soará. Não esteja a cismar nisso...

Vou-lhe buscar o caldinho, sim?

— Vá, se quer, Mariana. O céu deparou-me em si a amizade duma irmã.

Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta à doçura que o rosto do mancebo exprimia.

Veio com o "caldinho" — diminutivo que a retórica duma linguagem meiga sanciona; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, ao lado da travessa com meia galinha loura, de gorda.

— Tanta coisa! — exclamou, sorrindo, Simão.

— Coma o que puder — disse ela corando. — Eu bem sei que os senhores da cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais pequena; e coma sem nojo, que esta malga nunca serviu, que a fui eu comprar à loja, por pensar que vossa senhoria não quisera ontem comer por se atrigar da outra.

— Não, Mariana, não seja injusta, eu não tinha, nem tenho vontade.

— Mas coma por eu lhe pedir... Perdoe o meu atrevimento... Faça de conta que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse...

— Que o céu me dava em si a amizade duma irmã...

— Pois aí está...

Simão achou tão necessário à sua conservação o sacrifício, como ao contentamento da carinhosa Mariana. Passou-lhe na mente, sem sombra de vaidade, a conjetura de que era amado daquela doce criatura. Entre si dizia que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal afeição quando não tinha alma para lha premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem longe de se afligir, lisonjeavam-no os desvelos da gentil moça. Ninguém sente em si o peso do amor que se inspira e não comparte. Nas máximas aflições, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor que nos dão nós graduamos o que valemos em nossa consciência.

Não desprazia, portanto, o amor de Mariana ao amante apaixonado de Teresa. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se me deixam ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza, que é toda galas no céu, no mar e na terra, e toda incoerências, absurdas e vícios no homem, que se aclamou a si próprio rei da criação, e nesta boa fé dinástica vai vivendo e morrendo.

Duas horas se detivera João da Cruz fora de casa. Chegou quando a curiosidade do estudante era já sofrimento.

— Estará seu pai preso?! — disse ele a Mariana.

— Não mo diz o coração, e o meu coração nunca me engana — respondera ela.

E Simão replicara:

— E que lhe diz o coração a meu respeito, Mariana? Os meus trabalhos ficarão aqui?

— Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simão... mas não digo...

— Diga que lho peço, porque tenho fé no bom anjo que fala em sua alma.

Diga...

— Pois sim... O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no começo...

Simão ouviu-a atentamente e não respondeu. Assombrou-lhe o ânimo esta idéia torva, e afrontosa à singela rapariga: — "Pensará ela em me desviar de

Teresa, para se fazer amar?"

Pensava assim quando chegou o ferrador.

— Aqui estou de volta — disse ele com semblante festivo. — Sua mãe mandou-me chamar...

— Já sei... E como soube ela que eu estava aqui?

— Ela sabia que o fidalgo estivera cá: mas cuidava que vossa senhoria já tinha ido para Coimbra. Quem lho disse não sei, nem perguntei; porque a uma pessoa de respeito não se fazem perguntas. Dizia ela que sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa; mas eu, cá como pude, acomodei-a e não há novidade. Perguntou-me o que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fora para o convento. Disse-lhe que vossa senhoria estava adoentado de uma queda que dera do cavalo abaixo. Tornou ela a perguntar-me se o senhor tinha dinheiro; e eu disse que não sabia. E, vai ela, foi dentro, e voltou dai a pouco com este embrulho, para eu lhe entregar. Aí o tem tal e qual; não sei quanto é.

— E não me escreveu?

— Disse que não podia ir à escrivaninha, porque estava lá o senhor corregedor — respondeu com firmeza mestre João — e também me recomendou que não lhe escrevesse vossa senhoria senão de Coimbra, porque, se seu pai soubesse que o menino cá estava, ia tudo raso lá em casa. Ora ai está.

— E não lhe falou nos criados de Baltasar?

— Nem um pio!... Lá na cidade ninguém já falava nisso hoje.

— E que lhe disse da senhora D. Teresa?

— Nada, senão que ela fora para o convento. Agora deixe-me ir amansar a égua, que está a escorrer em fio. Ó rapariga, traze-me cá a manta.

(continua...)

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