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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

Ao entardecer do dia 15 de Maio de 1845, o padre Luís de Sousa escrevia a sua correspondência para Londres. Anunciou-se o padre Bernardo Rocha, perguntando a hora menos ocupada para poder dar duas palavras ao reverendo dono da casa. Foi logo recebido. Que todas as horas eram livres para receber os amigos.

Padre Rocha principiou alegando que os seus sentimentos políticos eram bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro realista, e que facilmente daria o sossego da sua vida em sacrifício das suas convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a exigir que lhe respondessem a verdade.

– Se a pergunta for feita a mim, não poderei responder de outra maneira. Que quer saber, padre Rocha?

– Se o Sr. D. Miguel está em Portugal.

– Não, senhor. Há 15 dias estava em Itália. – E abrindo uma gaveta, extraiu de uma pasta muito ordinária de carneira surr1æada com atilhos um papel que mostrou. – Aqui está uma carta assinada pelo Sr. D. Miguel de Bragança, datada no 1º de Maio. Quanto a isto, está satisfeito. Que mais quer saber?

– Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.

– Bem sei – preveniu o padre Luís. – Essa mesma pergunta me fez há dias o Bezerra de Barrimau, seu vizinho, e mais de um cavalheiro de Braga, o Barata, o Manuel de Magalhães, etc. Diz-se por lá que o Sr. D. Miguel está no Alto Minho, no concelho da Póvoa de Lanhoso. Propalam-no certos padres, não sei com que alcance. A estupidez tem intuitos impenetráveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo boato, se não é para alarmar o governo ou lograr incautos.

– É isso mesmo: lograr incautos – interrompeu o Rocha, e contou o que se estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do suposto D. Miguel e o empréstimo dos três contos, que o fidalgo tencionava levar no próximo sábado ao impostor.

– Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opróbrio ao partido legitimista – alvitrou o paleógrafo. – Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar alguma imprudência. Por isso vim consultar o reverendo Luís de Sousa. e daqui irei para Braga entender-me com o governador civil.

– Faz bem. Não lho aconselharia, se pudéssemos dar remédio mais suave à doença desse miserável impostor, de quem eu sei mais algumas traficâncias. Constou-me há poucas horas, que umas beatas de Braga, abastadas, e de apelido Botelhas, tinham enviado uma importante quantia, por intermédio de um certo abade, a um D. Miguel que está escondido em Portugal. Eu podia dar aviso desta ladroeira; mas tenho compaixão do abade: não sei se ele é ladrão ou tolo. A segunda hipótese é que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha, faz um bom serviço à humanidade e ao partido, solicitando o castigo desse homem que conspurca o nome de el-rei e a honra do partido. Agora, visto que veio, vou dizer-lhe o que há. Saraiva trata de contrair um empréstimo e de negociar generais, que infelizmente precisamos. O Póvoas está decrépito e quase morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As patentes superiores, pela maior parte, estão em pessoas que regulam pela inteligência do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Há por aí outros que aprenderam a táctica da covardia desde o cerco do Porto. Mal podemos contar com eles, quando os vemos intervir nas facções dos liberais a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas postas em almoeda. No ano próximo futuro, o partido legitimista deve dar sinais de vida; se esses sinais hão-de ser como os do cadáver galvanizado que se convulsiona e recai na sua podridão, isso não sei. O Sr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre Rocha, que el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para nos dar o muito que esperamos da sua influência e do seu afecto à legitimidade. E adeus, que sai depois de amanhã de Lisboa o paquete: estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva.

O secretário-geral, governador civil interino de Braga na ausência do conselheiro João Elias – uma vitima burlesca de troça dos setembristas – era o Marques Murta, uma gigantesca actividade frenética num corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da perspicácia política muito saliente. De resto, serviçal, agradável, com uns requintes de delicadeza de bom tom.

O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos sucedidos e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até além do dia seguinte, porque no sábado safa de Quadros o Cerveira Lobo com os três contos. – Talvez fosse mais curial e exemplar prendê-lo depois, e entrar com os três contos no cofre do distrito, visto que o Cerveira os quer aplicar às necessidades da monarquia – opinou o secretário sorridente.

O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos já não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de D. Miguel I ou de D. Maria II.

(continua...)

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