Por Aluísio Azevedo (1884)
— Pronto, disse o Borges, depois de amarrar a escada no cordão.
Filomena daí a pouco lançava-se nos braços do marido, a exclamar: — Fujamos, meu amor! Fujamos!
— Não grites! ralhou o sedutor. Olha que te podem ouvir!
E, com efeito, alguém abria já uma janela.
— Estamos perdidos! bradou a fugitiva.
O Borges, porém, havia já alcançado a rua com a mulher nos braços, quando o sujeito da janela berrou com uma voz de trovão:
— Ó da guarda! Ó da guarda!
Ouviu-se um estardalhaço de portas que se abrem precipitadamente fechaduras que rangem e vozes que se altercam.
Mas Filomena, trêmula e sobressaltada, achava-se já dentro do carro, ao lado do raptor, e os cavalos galopavam fustigados a valer pelo estalajadeiro.
Enquanto fugiam, os cinco cantonalistas, no meio de grande algazarra, de gritos e de apitos, simulavam uma alteração na rua, atraindo sobre si os serenos, que acudiam de vários quarteirões.
O carro, entretanto, voava pelas ruas de Triana, para os lados de Lora-delrio. A cidade desaparecia atrás deles, vertiginosamente. Mal avistavam já o cume quadrado da Giralda, que o luar fazia sobressair no horizonte.
No fim de três horas de carreira, penetravam no campo.
— Estamos salvos! exclamou Filomena. No campo não seremos alcançados!
— Ao contrário, respondeu o estalajadeiro, o campo e menos favorável à fuga, porque temos de evitar os guardias civiles, muito mais perigosos que os serenos.
Não tardou a surgir ao longe o primeiro par de tais guardias.
— Quem vai lá?! gritou um deles.
O estalajadeiro em resposta fustigou melhor os cavalos e precipitou-se em direção contrária ao lugar donde vinha aquela voz.
— Alto! gritou o guarda campestre.
Novas e mais fortes chicotadas.
— Faça alto! gritou o outro guarda engatilhando a sua espingarda.
O estalajadeiro, que conhecia muito bem as prerrogativas da sentinela do campo na Espanha, apertou o galope de seus animais e vergou-se todo para a frente, sobre as coxas.
Uma bala veio cravar-se na traseira do carro. Em seguida outro tiro, depois outro; mas as bestas não afrouxaram e o carrinho sumiu-se por entre as sombras de um olival que nascia a algumas braças daí.
— Ânimo! gritou o intrépido cocheiro aos fugitivos. Dentro em pouco estaremos livres de perigo; trata-se apenas de ganhar a outra margem do rio!
E fustigou as bestas com energia.
Mas no fim de meia hora de galope cerrado, o estalajadeiro soltou um grito, que aterrou os companheiros. Na sua precipitação, invadira, sem dar por isso, as terras de um tal marquês de Saltilio, e agora, auxiliado pela aurora, que ia repontando, via-se no meio de uma vasta dehesa, cujos touros gozavam da fama dos mais perigosos de toda aquela redondeza.
— Ira de Dios! bradou ele, enquanto o Borges e Filomena, estarrecidos de medo, espiavam pelas portinholas.
— Que é?! perguntaram.
— É que podemos ser assaltados pelos touros! explicou o cantonalista, tratando de fugir ao perigo.
A dehesa era enorme, estendia-se até muito longe; nessa ocasião, por felicidade, os touros achavam-se entretidos para o lado contrário ao do carro, e o estalajadeiro não precisou puxar muito pelos cavalos, porque estes fariscando logo o risco que corriam, abriram a rinchar e, mau grado da fadiga, desembestaram para as bandas do campo.
Ma]ditos rinchos! Um touro acabava de despertar ao seu fragor e, encapotando a cabeça nas pernas dianteiras, corria assanhado na direção do carro.
O federal chicoteou os cavalos com toda a força e o pobre coche rodou por entre o mato como uma bala perdida.
— Anda! Anda! berrava o Borges de pé, a tocarolar as costas do cocheiro. — Olha que o diabo do bicho aí vem!
Com efeito, o touro perseguia-os na distância de uns cinqüenta passos.
— Preparem as armas! bramiu Filomena. Aqui o recurso que há é lutar.
Mal terminava essa frase, quando se sentiu decair com o marido para a direita; uma das rodas do carro estava por terra, em pedaços.
— Jesus! fez ela, agarrando-se à portinhola.
— Já aí vem o conocedor e já ouço o chocalho do cabestro. Estamos salvos!
De fato, três homens a cavalo e seguidos de um boi velho e manso, vinham com os seus cajados em punho à pista da rês que se desgarrara da dehesa. O touro logo que ouviu o chocalho, parou, sorveu o ar por alguns segundos e foi humildemente emparelhar-se ao cabestro.
— Diabos te consumam! rosnou o federal, considerando o estado de seu pobre carro e de seus pobres animais. Como hei de agora arranjar-me para a volta?!...
Felizmente já não estavam muito longe da estação de Lora, e o Borges, se não quisesse tomar aí o caminho de ferro, podia ficar em algum hotel, onde com facilidade arranjaria meios de condução para o lugar que melhor entendesse.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.