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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Amália persistiu não obstante; e com uma razão que desarmou a mãe. 

 

— Se é preciso que responda imediatamente, mamãe, recuso. É porque desejo aceitar, que peço a liberdade de refletir. Para dispor de minha vida inteira, não são muitos alguns dias. 

 

— Pois bem, Amália, pensa à tua vontade; mas lembra-te de que a viagem está próxima. É verdade que pode-se adiar, até mesmo porque o tempo não anda bom; tem havido tantos temporais. Que diz, Sr. Veiga? 

 

O capitalista, que lia os jornais, levantou os óculos para observar: 

 

— Mas o câmbio é ótimo. A ir não devemos perder esta ocasião. 

 

 Amália hesitou durante alguns dias. Ela tinha naquela carta, lida tantas vezes, e guardada consigo, a prova cabal, além de muitas outras, do amor que Hermano lhe consagrava. Mas podia ela confiar a sua sorte desse amor? 

 

Hermano era uma alma nobre, um caráter leal, incapaz de iludí-la  Não duvidava dele; mas duvidava de si. Receava não ter força para dominar e possuir esse coração generoso, arrancá-lo ao passado em que se havia sepultado, e ressuscitá-lo à felicidade. 

 

Ela acreditava que o marido de Julieta ainda amava a primeira mulher e vivia de sua lembrança 

 

Mas esse afeto de além-túmulo não podia encher-lhe a existência; e por isso aquela alma rica de paixão e mocidade se desprendia da sua idolatria para buscar no mundo uma expansão, um sentimento de que se nutrisse. 

 

Nesse impulso, Hermano se lançara na realidade, fascinado pela beleza da desconhecida; mas, em breve a ilusão desvanecera-se. O homem regenerado pelo amor casto de Julieta não podia corromper-se numa lição impura. Passada a alucinação, tornara ao seu culto. 

 

“ — Foi então que ele, despertado pela recordação da mulher, e crendo em mim outra Julieta, começou a amar-me, pensava Amália; e talvez esse amor o tenha salvado, dando-lhe forças para reabilitar-se. Sem ele, sem um afeto que o obrigue e o ampare, não se deixará dominar ainda pela beleza fatal daquela mulher, ou de outra como ela? E poderá reerguer-se da nova queda?”  

 

A moça decidiu então na generosidade de seu amor votar-se à guarda e arrimo desse homem infeliz pela exuberância de sua alma. 

 

“— Mas, se o amor que inspirei, e que ele sinceramente acredita sentir por mim, não for mais do que um capricho efêmero, um reflexo apenas da paixão que tem por Julieta? Quando dissipar-se o encanto, me perdoará ele ter profanado o culto da esposa e rompido para sempre o elo que o prendia à primeira e única mulher amada? Não terei eu sacrificado a minha vida, não para dar-lhe a felicidade, mas para fazer a sua desgraça?”  

 

Era esse o grande problema do seu destino. Amália bem o compreendia; e sem deliberação para resolver por si, deixava isso ao tempo, esperando uma inspiração do céu. Entretanto passavam os dias; aproximava-se a época da viagem; e talvez fosse esta o melhor e o único desenlace. 

 

Toda essa hesitação, bastou um olhar para dissipá-la. Amália, indo com a mãe à cidade, encontrou Hermano e não pôde resistir ao gesto de doce resignação com que ele a saudou. 

 

“ — É o meu destino, pensou a moça. O meu e o seu.”  

 

Respondeu ao cumprimento, parando para falar-lhe; e na despedida, ao apertar-lhe a mão disse: 

 

— Até à noite. 

 

Ao escurecer, quando Hermano chegou, Amália o esperava no jardim. Antes que ele proferisse qualquer palavra, a moça, espontaneamente e como se continuasse um diálogo não interrompido, entregou-lhe a mão dizendo: 

 

— Com uma condição. 

 

— Qual? 

 

— Se até o último instante eu perceber o menor sinal de arrependimento ou mesmo de hesitação, fica-me o direito de restituir-lhe a liberdade. 

 

— Duvida de meu amor, Amália? Depois de ter-lhe dado a maior prova? tornou Hermano magoado. Que conceito lhe mereço então? 

 

— Não! acudiu a moça vivamente. Não duvido; nem do seu amor nem da sua lealdade, Hermano. É o interesse pela sua felicidade que me inquieta. 

 

À noite as visitas receberam com a notícia do malogro da viagem à Europa a participação ainda confidencial do próximo casamento de Amália com Hermano. 

 

A certeza dessa união, esperada pelas pessoas que freqüentavam a família Veiga, foi bem recebida; todos felicitaram cordialmente os noivos. O Borges, porém, embora se mostrasse dos mais pressurosos em aplaudir, ia pelos vários grupos de convidados insinuando um veremos significativo. 

 

(continua...)

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