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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

A moça porém não carecia dessas ilusões cênicas. Aquela aparição esplêndida era em sua existência um fato de todos os dias, como o orto dos astros. Se sua beleza surgia sempre brilhante no oriente dos salões, assim conservava-se toda a noite, no apogeu de sua graça. 

O Lemos, vendo entrar sua pupila, foi-lhe ao encontro e acompanhou-a até ao sofá: 

- Aurélia, tenho a honra de apresentar-lhe o sr. Seixas. 

A moça correspondeu com uma leve inclinação da fronte à cortesia de Seixas, a quem estendeu a mão, que ele apenas tocou. Ainda neste momento o moço não conseguiu de si fitar a pessoa que tinha em face. 

Esse rosto desconhecido incutia-lhe indizível pavor; porque era a fisionomia de sua humilhação. 

Aurélia para romper o enleio da apresentação, começara com o tio uma dessas conversar de sala, que suprem o piano e o canto; e que não passam, como eles, de um rumor sonoro para entreter o ouvido. 

A extrema volubilidade com que a palavra lhe brincava nos lábios, fazia contraste com a rispidez do gesto sempre harmonioso, e com um refrangimento que por assim dizer congelava-lhe o lado do perfil voltado para Seixas. 

Entretanto dissipou-se a grande comoção que percutira profundamente o organismo desse homem, desde o momento da entrada de Aurélia no salão, e lhe havia embotado os sentidos. Uma voz melodiosa penetrou-lhe n'alma, acordando ecos ali adormecidos. Pela primeira vez pôs os olhos no semblante da moça e imagine-se qual seria o seu pasmo reconhecendo Aurélia Camargo. 

Por algum tempo julgou-se vítima de uma alucinação. Custava-lhe a convencer-se que tivesse realmente diante de si a mulher de quem se julgava eternamente separado. A comoção foi tão forte que desvaneceu quase de seu espírito a lembrança do motivo que o trouxera aquela casa, e a posição falsa em que se achava. Uma satisfação íntima o absorveu completamente, e não deixou presas às amargas preocupações que pouco antes o dominavam. 

Também Aurélia de sua parte havia recobrado a calma, pois voltou-se sem o mínimo acanhamento para o moço e perguntou-lhe: 

- Esteve ultimamente no norte, sr. Seixas? 

- Sim, minha senhora. Cheguei a semana passada de Pernambuco. 

- Onde desempenhou uma comissão importante, acrescentou Lemos. 

- O Recife é realmente tão bonito como dizem? 

- Creio que poucas cidades do mundo lhe poderão disputar em encantos de perspectiva e beleza de situação. 

- Nem o nosso Rio de Janeiro? Perguntou Aurélia com um sorriso. 

- O Rio de Janeiro é sem dúvida superior na majestade da natureza; o Recife porém prima pela graça e louçania. A nossa corte parece uma rainha altiva em seu trono de montanhas; a capital de Pernambuco será a princesa gentil que se debruça sobre as ondas dentre as moitas de seus jardins. 

- É por isso que a chamam de Veneza brasileira. 

- Não conheço Veneza; mas pelo que sei dela, não posso compreender que se compare a um acervo de mármore levantado sobre o lodo das restingas, com as lindas várzeas do Capiberibe, toucadas de seus verdes coqueirais, a cuja sombra a campina e o mar se abraçam carinhosamente. 

- Já vejo que o senhor encontrou a musa no Recife, observou Aurélia gracejando. 

- Acha-me poético? Não fiz senão repetir o que provavelmente já disse algum vate pernambucano. Quanto à minha musa... ficou anjinho: morreu de sete dias e jas enterrada na poeira da secretária! Respondeu Seixas no mesmo tom. 

Tinham entrado várias visitas, cuja chegada interrompeu este diálogo. Aurélia ergueu-se para receber as senhoras, enquanto os cavalheiros se derramavam pela sala esperando o momento de apresentar suas homenagens à dona da casa. 

Notava-se a completa ausência dos pretendentes declarados de Aurélia; se algum conseguira ser convidado, devia o favor à circunstância de não revelado ainda suas intenções. 

Fatigada das adorações de que era alvo nos bailes e que se transformavam em verdadeira perseguição, Aurélia fizera dessas reuniões em família um como remanso onde se abrigava da obsessão do mundo. 

Aproveitando a confusão, Lemos levou Seixas à janela: 

- Então enganei-o? 

- Ao contrário; nunca eu poderia supor que fosse ela. 

- Pois agora que a conhece, é tempo de saber que sou eu o feliz tutor deste amorzinho; e que chamo-me Lemos e não Ramos. Diferença de duas letras apenas. 

(continua...)

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