Por José de Alencar (1870)
Com pouco ali apareceu o Canho, montado no Morzelo e seguido da Morena e do poldrinho, que trotavam no meio da tropilha. Apeou o gaúcho para apertar a mão de Jacintinha, e dirigiram-se ambos ao alpendre, depois de algumas palavras trocadas. Quem observasse a menina naquele instante, havia de reparar na sua expressão constrangida. Um motivo qualquer retinhalhe nos lábios, e até no gesto, a efusão de sentimento, que só pelos olhos e a furto lhe escapava. Manuel, porém, não se apercebia disso; da irmã não vira mais que o vulto; se lhe perguntassem de repente a cor de seu vestido, com certeza não soubera responder.
Saiu a viúva ao encontro do filho, logo que ele passou a tronqueira. A dois terços do caminho se encontraram, nenhum porém se havia apressado; o gaúcho adiantou-se porque seu andar era naturalmente mais desembaraçado do que o da matrona.
— Adeus, meu filho. Estais bom de saúde?
— Bom, minha mãe, obrigado. E Vm.cê, como lhe vai?
— Sempre na mesma, graças a Deus!
Subiram ao alpendre.
Deixara-se Jacinta ficar atrás, para correr ao poldrinho e o abraçar enchendo-o de meiguices. Dir-se-ia que reconhecera o animalzinho a irmã de seu amigo, ou se embelezara pela gentileza da donzela. Apesar de sua arisca braveza, consentiu em ser acariciado; e chegou mesmo a brincar com sua nova companheira.
— Que bonito poldrinho, que ele trouxe, mãezita”! exclamou Jacinta. Tão engraçadinho!
Manuel, voltando para o grupo original, envolveu num olhar de ternura as duas juventudes, da irmã e do animalzinho.
— Fizestes bom negócio com a égua, Manuel? Quanto destes por ela?
— Nada, minha mãe.
— Ah! Foi presente que vos fizeram? Por quanto pretendeis vendê-la? Alguns vinte patacões?...
— Não é de venda! respondeu o gaúcho laconicamente, descendo ao pátio.
Nem sinal deu a viúva de estranheza por aqueles modos, aos quais sem dúvida estava mais que habituada. Chamou a filha para mandar aprontar a ceia.
— Manuel há de estar com fome! Sem dúvida não jantastes, meu filho?
— Pouco e cedo.
— Então vai, Jacintinha.
Tudo isto era dito com o tom calmo e frio das coisas costumeiras. Ninguém acreditara que ali estavam mãe e filho, no primeiro instante de chegada, após uma ausência de meses.
Enquanto lhe preparavam a ceia, foi Manuel agasalhar com a maior solicitude a Morena e o filho, não esquecendo os outros cavalos. Consumiu nesse mister uma boa hora; não obstante os repetidos chamados da irmã, só deixou seus camaradas, quando os viu bem acomodados, feita a cama de palha, e distribuída a ração da noite.
Então decidiu-se a cear; contando porém visitá-los antes de dormir.
A refeição era parca: churrasco, bocado clássico das campanhas sulinas, queijos, origones ou passas de pêssego. Manuel comia rapidamente e de cabeça baixa; seu olhar uma só vez não procurou o semblante das duas mulheres, para colher ali um vislumbre de prazer por sua chegada.
Francisca de seu lado, cochilando na costumada pachorra, com as mãos cruzadas sobre o regaço, olhava o filho sossegada. Não assim Jacintinha.
Com os lindos pregados no semblante de Manuel, meio reclinada sobre a mesa, cintilante de vivacidade, espiava ela o menor desejo do irmão par servi-lo prontamente. Se porém o gaúcho erguia a cabeça, ela se enleava trêmula, não tanto de receio, com do prazer de ser olhada.
Terminada a refeição, preparou Jacintinha o chimarrão; enquanto Manuel chupava a bomba, trocaram-se entre as três pessoas da família algumas palavras, calmas e compassadas, sem efusão, mas também sem o mínimo ressentimento.
— A mãe não teve novidade? Vai passando bem?
— Assim, assim, Manuel; já me sinto pesada. A gordura é demais.
— Mãezita não gosta de andar, observou a menina.
— Como vai a bragadinha, Jacinta?
— Ah! Morreu, Manuel!…
— Coitadinha! Como? … perguntou o gaúcho enternecido.
— A mãe deu-lhe um coice! respondeu Francisca rindo.
Manuel ergueu-se de mau modo, dando as boas-noites, e saiu para o terreiro, donde ganhou a estrebaria. A Morena e o filho o receberam com mil carícias, que ele retribuiu; arranjoulhes de novo a cama, com receio de que não estivesse bem macia, escolhendo-lhes alguns molhos do capim mais tenro; depois do quê, recolheu a seu aposento, que ficava numa espécie de sótão por cima da manjedoura.
II
O PAI
Que anomalia era a fibra cardíaca desse homem?
Coração para uma raça bruta, músculo apenas para sua própria espécie e até para sua família.
Quanto se expandia em amor e dedicação com os animais, seus prediletos, tanto se retraía com frieza e indiferença ante as mais doces afeições de sangue que o cercavam.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.