Por Camilo Castelo Branco (1882)
Fez-lhe a vontade. O Rocha também admirava, e de si consigo dizia que o rei tinha bom palavreado sentimental, ou que o impostor não era qualquer pedaço-de-asno. Continuou:
Vou responder com repugnância e tristeza às últimas linhas da vossa carta em que me ofereceis liberalmente recursos. Eu vivo há doze anos dos benefícios dos meus vassalos: seria loucura fingir que não preciso que mos prestem hoje. A demora que tem havido no meu aparecimento aos meus amigos e partidários não ma explicam, mas suponho que é falta de dinheiro. Sei que minha irmã, a Srª Infanta D. Isabel Maria, deu cinquenta contos para começar o movimento, e esse dinheiro está em poder de um Dr. Cândido Rodrigues Álvares de Figueiredo e Lima, lente de Coimbra. Mas o que são cinquenta contos para sustentar uma insurreição em que há-de haver necessidade de sustentar, de vestir e de armar cem mil homens! Vós, meu, honrado amigo, que sois militar, compreendeis que nada se pode fazer sem que os poderosos, os opulentos, cooperem com a minha boa mana a Srª D. Isabel Maria.
Dizem-me que tenho amigos muito ricos que hão-de aparecer a tempo; mas eu necessito de preparar a ocasião em que eles prometem aparecer. À primeira voz tenho a certeza de levantar 12000 homens num pequeno círculo de léguas; mas não me atrevo a fazê-lo, a tentá-lo, sem me ver bastante provido de recursos, para não recear o pior dos inimigos que é a necessidade. Portanto, muito amado conde, meu valoroso general, aceito o vosso empréstimo; e tomarei da vossa fortuna três contos de réis, que vos recompensarei com o menos, que é o dinheiro, e com o mais, que é a minha eterna gratidão.
Deus Nosso Senhor vos tenha em sua santa guarda. De São Gens de Calvos, aos 12 de Maio de 1845.
Miguel, Rei.
Esta carta não confirmou nem removeu as suspeitas do padre Rocha. Quando o Cerveira lhe perguntou: – que tal? o que dizia ele? – dobrava a carta vagarosamente, encolhia os ombros e respondia:
– Enfim... não sei...
– Não sabe o quê? Lá que eu lhe levo o dinheiro, isso levo. Pudera não! Tudo o que eu tiver até à camisa do como. Ou se é amigo ou não se é amigo, hem? Que diz a isto, padre?
– Se quem escreveu esta carta é o Sr. D. Miguel, faz V. Exª o que deve, porque faz o que pode; mas seria bom ter a certeza...
– De que é o rei que me escreve?
– Sim.. a prudência... Há muito maroto por esse mundo.
– O padre está então a ler! Cuida que eu lhe dava o meu dinheiro sem o ver? Heide vê-lo com estes, e ouvi-lo falar primeiro. Mas deixe-se de asneiras, padre Rocha! É tão certo Deus estar no Céu como ele estar em Calvos.
– Bem! – atalhou o Rocha apressado, erguendo-se – quando vai V. Exª a Calvos?
– Hoje é terça-feira; a roupa chega de Braga na sexta, e parto no sábado. Ora agora, vou lá mandar o Zeferino a dizer-lhe que vou beijar-lhe a mão e levar-me os três contos. Se faz favor, escreva-me aí duas linhas, só duas linhas, a dizer isto.
O padre escreveu, e saiu muito preocupado. Celebrou a missa a D. Andresa, e pediu-lhe licença para se ausentar por três dias. Relatou à fidalga as suas desconfianças, o dever que se impunha de salvar o pobre idiota de alguma cilada à sua imbecilidade, e talvez de um roubo à mão armada.
– Mas quem sabe se é na verdade o D. Miguel que lhe pede o dinheiro? – reflectia D. Andresa, discreta e sensibilizada.
– É o que eu vou saber.
IX
Naquele tempo (1845), no Porto, Rua de S. Sebastião, nº 1, morava o padre Luís de Sousa Couto , paleógrado da Misericórdia. Representava sessenta e tantos anos, uma nutrição doentia, pesado, com os pés túrgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso lhano, conversava morosamente pausado com admirável correcção; deixava-se interromper sem impaciências e não interrompia nunca os desatinos, maçadas, e até as tolices de quem quer que fosse. E ouvia muitas. Este padre obscurecido na sua paleografia que lhe dava oito tostões por dia, naquela asquerosa alfurja chamada Rua de S. Sebastião, com o aljube à esquerda e as imundícies da Pena Ventosa à direita, era o impulsor, a alma, o cérebro do gigante miguelista nas províncias do Norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva enviava-lhe de Londres os elementos para os seus cálculos, pedia-lhe conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o príncipe proscrito o elegera bispo ou patriarca de Lisboa – não me recordo qual era a mitra.
A sua presença venerável impunha sem artifício; uma grande bondade obsequiadora; não proferia palavra ofensiva dos seus adversários políticos; não aceitava donativos dos seus correligionários; vivia com severa parcimónia dos seus 800 réis havidos da Santa Casa, e morreria de penúria antes de pedir ao governo liberal a paga dos seus lavores ilustrados, correctíssimos de intérprete de velhos e quase indecifráveis códices.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.