Por Aluísio Azevedo (1882)
E, como isso talvez não chegasse a tempo de transformar as núpcias, enviou logo uma denúncia ao chefe de policia, e correu para a casa da noiva com a idéia de preparar por lá o terreno.
Calcule agora o leitor qual não foi a princípio o seu contentamento, quando viu que Gregório não aparecia, e depois qual não foi a sua surpresa, ao saber que o rapaz não fora apanhado pela polícia e que desaparecera, sem que ninguém soubesse explicar por que e para onde.
Mas qual era o motivo que levava João Rosa a desejar com tanta insistência unir-se a Clorinda?!
O amor não podia ser! como observou já a viúva. Que seria pois?
Eis o que convém quanto antes pôr às claras:
João Rosa, de seu natural curioso e bisbilhoteiro, logo que se deu em casa de D Januária, ficou mordido de interesse por descobrir donde vinha aquela estranha e gorda mesada, com que ela e a pupila subsistiam tão decentemente. E desde então não descansou. Era preciso descobrir a fonte daquele mistério ou ele ficaria devorado pela curiosidade. Mas o pior é que a velha, por mais que fizesse o bisbilhoteiro, nunca deixava escapar uma única palavra que o encaminhasse no segredo.
João Rosa indagava para todos os lados, espiava de esguelha as gavetas, apanhava sorrateiramente os fragmentos de papéis que caíam no chão, quando em sua presença D. Januária abria qualquer carta. Mas nada conseguia. Afinal, depois de muito excogitar, chegou a descobrir o portador da mesada: era um português velho e gordo, proprietário de um pequeno armazém de secos e molhados para os confins da rua da Quitanda. Meteu-se de amizade com o homem, e tanto fez, tanto virou, que conseguiu enfim saber que aquele dinheiro era enviado pelo próprio pai de Clorinda, que vivia em Portugal e passava por morto no Brasil, em virtude de umas tantas coisas que ele narrador ignorava.
E terminou declarando que esse tal sujeito de Portugal era homem de grande fortuna e havia naturalmente de legá-la a única filha que possuía — Clorinda.
Tanto bastou para acender no onzenário coração de João Rosa a cobiça daquela menina. E, quando mais tarde veio a saber que o Leão Vermelho falecera em Portugal com o nome de João Brasileiro, deixando um único herdeiro existente no Brasil, justamente como disse o conde a Gregório, João Rosa, que ignorava a relação deste com o falecido, guardou o seu segredo contra D. Januária e Clorinda, e tratou de, a todo transe, apoderar-se da suposta legatária.
CAPÍTULO IX
O COMENDADOR PELO AVESSO
Tratemos agora de esclarecer os verdadeiros trâmites do crime, de que foi injustamente suspeito o pobre Gregório, e puxemos às vistas de quem nos lê a figura do seu principal autor e a daqueles que lhe serviram de cúmplices.
Deve ainda estar lembrado o leitor de dois tipos de meia idade, que dialogavam no café da Menina do Bandolim e, tão empenhados se achavam no assunto de sua conversa, que só resolveram levantar o vôo, quando lhes foi dizer o dono da casa que desejava fechar as portas. Um desses dois tipos, justamente o que parecia mais moço, estava há muitos anos ao serviço do comendador Portela. Chamava-se Pedro Sarmento e era na sua roda conhecido pelo cognome de Talhacerto. Fora na infância aprendiz marinheiro, depois serviu na guerra do Paraguai, como voluntário do exército, e, afinal, sem profissão, nem padrinhos, caíra na dependência do comendador, a quem servia de guarda-costas.
O comendador Portela tinha hábitos muito especiais, muito seus; hábitos de viver na intimidade, totalmente oposto àquelas jactâncias que lhe vimos blazonar em casa de D. Januária.
No privado de sua casa era outro homem. Despia-se então das fumaças da rua e dava-se todo ao prazer de estar às soltas com o criado. Aí não armava posições, não peneirava a frase, não lembrava a sua importância social, nem as suas franquias de homem rico; ao contrário, parecia farejar o que houvesse de mais banal e de mais decotado para lhe servir de palestra com o fâmulo.
E, uma vez achado o fio do assunto, espojava-se nele, voluptuosamente, como se quisesse refocilar das fidalgas que lhe impunha o seu artificioso viver social.
Ele, que nas salas, ao ouvir falar da quebra do banco tal, da falência deste ou daquele negociante, do bom ou mau êxito de tais e de tais empresas, sacudia sempre os ombros com desdém e dizia entre dentes que tudo isso eram Tagatelas! Bagatelas!"; ouvia, entretanto, com muito interesse as frioleiras que à noite, ao despi-lo para a cama, lhe contava em camaradagem o seu Talha-certo. E, quando mais frívolo era o assunto, tanto mais ele o esmiuçava, o esmerilhava, interrompendo-o com perguntas curiosas, e fazendo exclamações de surpresa, e obrigando o criado a repetir o fato com mais minudência e convicção.
Depois atirava-se à cama e, todo retraído nos lençóis e abraçado aos travesseiros, deixando só de fora o seu carão afogueado, provocava Talha-certo a novos esclarecimentos, e saboreava as palavras do criado com um gosto pueril de criança mexeriqueira.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.