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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Este federal é chefe com certeza de algum cantão! disse consigo o estalajadeiro. E sabe Deus qual não será a importância de sua presença por estas alturas!...

— Em todo caso... acrescentou o Borges, tomando uma resolução, não me despeço de seus favores, talvez precise deles.

E chegando-se por sua vez ao ouvido do outro, em tom de segredo:

— Preciso fazer chegar uma carta às mãos daquela senhora que...

— Já sei; de quem se trata, interrompeu o estalajadeiro. Trata-se da fidalguinha portuguesa. Bem tinha eu cá um pressentimento!... Preparai o amigo a carta, que eu a farei chegar ao seu destino, custe o que custar! E vou daqui ver mais cinco companheiros, tão bons como eu, com os quais podemos contar para a vida e para a morte!

— Obrigado, respondeu o Borges, pondo-se a jeito de escrever.

E logo que terminou a carta, chamou o seu correligionário, e entregou-lha juntamente com algumas libras esterlinas.

O cantonalista repeliu energicamente o dinheiro, dizendo frases de abnegação heróica. E, com tão boa vontade se pôs em ação, de tal modo providenciou as coisas, que pouco depois uma correspondência cerrada se estabelecia entre o Borges e a mulher.

Eram belas cartas de amor, escritas com entusiasmo de parte a parte. O marido, nas frases mais poéticas que conseguiu arranjar, suplicava à esposa que desistisse do abrigo em que se achava e fosse ter com ele ao hotel, para fugirem juntos daquela maldita cidade, que só lhes trazia canseiras e dissabores.

Filomena, porém, exigia um rapto. Estava disposta a acompanhar o marido, mas não queria ir ao encontro dele, queria que ele a fosse buscar.

"É inútil insistires", terminava a visionária, em seguida a uma exposição minuciosa do que o Borges tinha a fazer para alcançá-la.

"Se me amas, como dizes, prova-mo, arrancando-me daqui violentamente. O verdadeiro amor não conhece dificuldades! Não encontra obstáculos quando se precipita em torrentes vertiginosas de um coração apaixonado! Vem! Vem conquistar-me à força de intrepidez e coragem, vem disputar-me com o risco de tua vida e eu serei tua, eu viverei para beijar os grilhões com que me prenderes ao teu destino! Tua, F."

O Borges ficou irresoluto, coçou a cabeça, passeou longas horas com as mãos cruzadas atrás. — Faltava-lhe mais essa, resmungou furioso: — ter de perpetrar um rapto! Eu! — Diabo leve tal viagem e mais quem me meteu na cabeça a idéia de casar! Ah! que se não fosse a esperança de que as coisas não durarão neste belo gosto por muito tempo, eu... eu nem sei o que faria!...

Mas, afinal, impaciente por sair do seu esconderijo, farto daquela situação que o tornava ridículo aos seus próprios olhos, deliberou fazer a vontade à mulher.

— Já agora seria o que Deus quisesse!...

Entretanto, o estalajadeiro, mal teve conhecimento das intenções do seu ilustre protegido, tratou de dar as providências para o rapto.

Chegado o momento, armou os seus homens: vestiu-se de cocheiro (profissão que exercera por muito tempo), muniu-se de um par de tiros, preparou a bagagem do raptor pela maneira que mais convinha à conjuntura, isto é, reduzindo-a o melhor que pôde, e meteu-a dentro de um coche apropriado, do qual tomaria a boléia; e, depois de erguer com os outros vários brindes ao Cantonalismo, à Espanha, à Liberdade; e depois de embolsados os protestos de gratidão que o Borges lhes apresentava na forma de moedinhas de ouro, puseram-se todos a caminho da casa do oficial, dispostos a derramar a última gota de sangue em prol da gloriosa empresa que cometiam.

E quem os visse, tão formidáveis nos seus capotes de conspiradores, os colones convictamente puxados sobre a orelha, os gestos ameaçadores e trágicos, não seria capaz de supor que se tratava de raptar uma donzela, mais que ninguém senhora de seu nariz.

Filomena, ébria de prazer com a idéia de ser furtada, palpitante de comoção, fez a trouxa em segredo e retirou-se ao quarto, pretextando incômodos para dissimular os seus projetos de fuga.

À meia-noite, chegava o terrível grupo dos conspiradores, acompanhando o coche que devia conduzir o precioso fruto daquela empresa delicadíssima. Borges separou-se de seus companheiros, mudo e sombrio. E, com o passo firme, a mão armada, penetrou resolutamente no jardim da casa em que estava a mulher. Não foi difícil, porque, felizmente, o portão achava-se apenas encostado.

Ao chegar debaixo de certa janela tirou da algibeira um pequeno assobio de metal e apitou devagarinho. A janela abriu-se logo e, ao doce clarão da lua, apareceu o vulto romântico de Filomena, toda de branco, os cabelos soltos, os braços nus.

— Vamos com isto! segredou-lhe o Borges, levando as mãos à boca em forma de porta-voz.

— Trouxeste a escada?... perguntou Filomena no mesmo tom.

— Trouxe. Arreia o barbante.

— Aí vai.

(continua...)

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