Por José de Alencar (1861)
Isabel — Eu, Senhor! Tenho eu mais o direito de amar alguém? Meu amor não seria um insulto para o único homem que mo poderia inspirar?... Amo minha filha, é verdade! Única afeição para que a mulher, a mais vil, nunca se torna indigna.
Miranda — Basta, Senhora; sei o que resta fazer.
Isabel — O que lhe peço, Senhor, é que ao menos de hoje em diante perca essa idéia cruel que o tortura e que me esmaga. Não suponha que o engano, não! Para que, meu Deus?... Acredita que fui culpada uma vez; um instante; não me posso defender; é a minha desgraça! Teria razão para acusar-me se fosse verdade, mas para desprezar-me assim, não!... Pode-se ter caído numa falta, e conservar-se ainda um resto de pudor... Ao menos um pouco de orgulho para não mentir.
Miranda — É preciso que isto tenha um termo. (Entra Clarinha) Depois lhe comunicarei a minha resolução.
CENA IV
Os mesmos e Clarinha
Clarinha — Já sei que os incomodei esta noite! (Beija Isabel) Não tinha sono, e estava tão nervosa. (Aperta a mão de Miranda)
Miranda — Bom dia.
Clarinha (a Isabel) — Tu sabes que o piano é que sofreu com os meus nervos. Lembras-te do teu? Quebrei esta noite não sei quantas cordas... É um prazer que sinto; aquele estalo faz-me o efeito de um choque elétrico!... Mas vejo que era preciso que eu aparecesse por aqui. Sua Excelência está carrancudo, como um ministro demitido; e tu nem me ouves! Estás descorada, que metes medo!
Isabel — Não passei bem.
Clarinha — Com aquele susto, tu que já não andas boa! (A Miranda) Meu tio, façame o favor de ralhar com o Senhor seu sobrinho para ver se ele toma algum jeito de homem sério. Eu já cansei.
Miranda — Acho-a muito alegre esta manhã.
Clarinha — E não se engana. Estou saltando de contente; acordei cantando, faça idéia! E também vou já prevenindo-o; não consinto que ninguém hoje esteja triste nesta casa. A sua respeitável personagem pode ir já começando a desenrugar a testa.
Miranda — Suponho que não há motivo para tanta alegria; ao contrário, parece-me que Henrique tem alguma cousa que o aflige profundamente.
Clarinha — Deveras, meu tio já reparou? E eu ainda nem dei por isso. Mas deixá-lo; são venetas; passam depressa; não lhe dê cuidado. (A Isabel) Vai fazer o teu toilette; quero que fiques ainda mais bonita, para ver se teu marido torna-se amável.
(A Miranda) Não me agradece?
Miranda — Desculpe-me; tenho que escrever. (Vai a mesa)
Clarinha — Ninguém o impede; mas olhe que a política não me entra daquela porta para dentro. Já não é pouco que a mania de caçar se tenha feito dona da casa, para ainda em cima receber hóspedes tão desenxabidos como a tal Senhora, que traz a cabeça dos Senhores todos a juros.
Miranda — E é só a política o mau hóspede que a freqüenta?
Clarinha — Qual é o outro? Diga!
Miranda — Foi apenas uma pergunta. Nada sei, nada devo saber.
Clarinha — Pois eu sei, meu Senhor, e não faço mistério. É o pouco caso dos maridos, por suas mulheres. Mas, não há de durar muito, eu lhe prometo.
Miranda — Não há de durar, não; diz bem.
Clarinha — Explique-se. (Miranda prepara-se para escrever; arrepende-se e sai no começo da cena seguinte)
CENA V
Clarinha e Isabel
Clarinha (corre a Isabel e dá-lhe dois beijos na face) — Não sabes por que estou contente, tão contente, não? Pois não adivinhas?... Henrique está desesperado de ciúmes!
Isabel — E tem razão, Clarinha.
Clarinha — Que é isso? Ele te contou?... Está furioso, não é verdade? Passou a noite a fumar e a arrancar os cabelos, e eu morrendo com vontade de rir-me às gargalhadas! Mas depois tive uma pena!... Saiu com toda aquela chuva, e de madrugada: agora é que voltou.
Isabel — Mas que fizeste tu, Clarinha?... Não te entendo!
Clarinha — Pois ele não te contou!... O bilhete daquele bobo do Sales, que eu deixei cair de propósito...
Isabel — De propósito?...
Clarinha — Sim!... Para fazer cócegas a Henrique; e mostrar ao Senhor meu marido a quanto fica sujeita sua mulherzinha, que ele abandona para andar se divertindo.
Isabel — Então tudo isto foi um gracejo da tua parte?
Clarinha — Oh! Bela! Esta não esperava! Fizeste semelhante idéia de mim!
Isabel — Perdoa-me, Clarinha. Perdoa-me! mas, se tu soubesses...
Clarinha — O quê?... Dize-me... O que sucedeu?
Isabel — O bilhete...
Clarinha — Sim.
Isabel — Henrique acreditou que você o perdera por acaso!
Clarinha — O ingrato! (Rindo) Mas era justamente o que eu queria.
Isabel — Conheço a letra...
Clarinha — Isso sabia eu.
Isabel —
Mostrou-o a Augusto...
(continua...)
ALENCAR, José de. O Que é o Casamento?. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16678 . Acesso em: 27 jan. 2026.