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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Sua própria razão não concebia como isso acontecera. Às vezes vinham assomos de dúvida, que se desvaneciam logo ante a realidade tão recente. Manuel tinha a consciência de sua natureza ríspida e concentrada; a indiferença e frieza que mostrava em seu trato, não provinham de um hábito somente; eram a repercussão interior da pouca estima em que o gaúcho tinha geralmente a raça humana. 

Entretanto, nos últimos dias ele fora tão outro, do que era realmente! Desvelos e solicitude que nunca tivera por pessoas de sua família, como os sentira por um estranho, pelo homem que maior mal lhe fizera neste mundo? 

O espírito de Manuel agitou-se algum tempo nesse caos de seu coração; até que afinal, desprendeu-se uma centelha e os lábios murmuraram: 

— Eu tenho de matá-lo! 

Aí estava a razão. Aquele homem era sagrado para ele como a vítima já votada ao sacrifício. Aquela vida lhe pertencia; fazia parte de sua alma; pois era o objeto de uma vingança tanto tempo afagada. 

A idéia de que ele havia de matar o Barreda, tornava Manuel compassivo não para o assassino de seu pai, mas para o enfermo que se revolvia no leito de dores. 

 

LIVRO SEGUNDO 

JUCA 


PONCHE-VERDE 

 

Ponche-Verde é o nome de um arroio que deságua no grande rio Ibicuí, próximo a suas nascentes. 

Não há melhor arquivo para guardar as tradições e costumes de um povo, do que seja uma etimologia topográfica. Na página imensa do solo nacional, escreve a imaginação popular a crônica íntima das gerações. Cada nome de localidade encerra uma recordação, quando não é uma lenda ou mito, que se vai transmitindo de idade em idade até perder-se nas obscuridades do tempo  

Quem sabe hoje por que chamaram ao arroio — Ponche-Verde? Acaso o banhado onde ele nasce, coberto de limo, traça a forma característica daquele trajo? Ou será a fina relva das margens, que de longe imita a lustrosa pelúcia do pano? 

Talvez nem uma, nem outra coisa. Porventura algum drama vivo, onde representou sinistro papel aquela parte do vestuário nacional do gaúcho, imprimiu à localidade o nome simbólico, hoje vago e incompreendido. 

Em todo caso aí está um traço fisionômico da campanha rio-grandense: o tipo gaúcho. 

Nas margens desse arroio pelejou-se, em 26 de maio de 1843, um combate, em que Bento Manuel derrotou as forças rebeldes sob o comando de Davi Canabarro. Foi este o prólogo da campanha que pôs termo à revolução; o epílogo coube ao bravo barão de Jacuí escrevê-lo com a brilhante vitória de Porongos. 

Além, onde a campina se alomba, como o dorso de uma anta, próximo à foz do arroio, havia uma casa com alpendre para o nascente. À direita pequeno curral, a que na província dão o nome de mangueira: na frente uma grande figueira, isolada em meio do campo; à esquerda uma ramada ou choça para os animais. 

Embaixo, já na margem do Ibicuí, viam-se cinco ou seis ranchos esparsos pela campina; alguns pertenciam à estância cuja casaria destacava-se no horizonte, em meio de um bosque de arvoredos frutíferos; outros, à gente pobre a quem o proprietário consentia habitarem em suas terras.  

O mais próximo povoado ficava a duas léguas de distância, no passo de D. Pedrito, sobre o Ibicuí, onde mais tarde se erigiu a freguesia de N. S. do Patrocínio. Era sobretarde. 

Estavam no alpendre da casa duas mulheres. A mais idosa, viúva de quarenta e cinco anos, conservava na tez o lustre da mocidade: tinha ainda uma bela fisionomia e passaria por formosa se não fora a excessiva gordura. Quanto à outra, era menina de quinze anos, e muito linda. 

Não tinham a mínima semelhança: e contudo ao vê-las ambas ao lado uma da outra se conhecia logo que eram mãe e filha. Os afetos de que estamos possuídos exalam constantemente de nosso íntimo uma perspiração moral. Talvez haja em torno de nós uma atmosfera de sentimento para a alma, como há uma para o pulmão. 

Sentada em um banco, de mãos enlaçadas sobre o regaço, acompanhava a mãe os graciosos movimentos da filha, a folgar pelo gramado. Um terneiro alvo e brincão tentava escapar-se para correr após a vaca; porém a travessa menina, atalhando-lhe o passo e cingindo-lhe os braços pelo colo, impedia o intento. 

Ouviu-se relinchar ao longe um cavalo. Erguendo os olhos deu a menina com um cavaleiro que transmontara a fronteira eminência. Distraída do folguedo, ficou um instante imóvel, com as mãos juntas e a vista atenta. Logo após, exclamou batendo palmas: — Manuel!... Manuel!... 

— Onde, Jacintinha? 

— Olhe mãezita! Respondeu apontando. 

— Vejo! 

Voltara a mãe os olhos na direção do cavaleiro; a filha deitou a correr e foi com sensíveis mostras de prazer, caminho da tronqueira, a encontrar-se com a pessoa que chegava. 

(continua...)

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