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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

VASCONCELOS - Se a senhora soubesse o que acabo de ouvir! Os maiores insultos!

AZEVEDO - Verdades bem duras, mas não insultos, senhor! Não é meu costume.

VASCONCELOS - Ah! O senhor está aqui?

EDUARDO - Sr. Vasconcelos!...

VASCONCELOS - Oh! Não faz. idéia do que este homem disse de mim. E se fosse só de mim!

Caluniou, injuriou atrozmente a minha filha!...

EDUARDO - Como, Sr. Azevedo?

AZEVEDO - Pergunte-lhe o que ouvi dele!

PEDRO (a ALFREDO) - Intriga está fervendo só! Hoje sim! Acaba-se tudo!

VASCONCELOS - E o que me dói, ainda mais, D. Maria, é que todas essas injúrias de que o senhor se fez eco, saem de sua casa!

PEDRO (a CARLOTINHA) - Mentira!

EDUARDO - De nossa casa, Sr. Vasconcelos?

HENRIQUETA'- Eu não creio, meu amigo.

VASCONCELOS - Tu não crês, porque não as ouviste, minha filha; senão havias de ver que só amigos fingidos pediam servir-se da intimidade para, à sombra dela, urdirem semelhantes calúnias!

D. MARIA - Nunca pensei, meu Deus, passar por semelhante vergonha!...

EDUARDO - E eu, minha mãe, eu que sou responsável por todos esses escândalos!

AZEVEDO - C'est ennuyeux, ça!

VASCONCELOS - Vamos, minha filha, deixemos para sempre esta casa onde nunca devíamos ter entrado!

HENRIQUETA - Eduardo!...

EDUARDO - Adeus, Henriqueta!

HENRIQUETA - Carlotinha!...

CARLOTINHA - Ama-me! Tu ao menos não Me farás chorar!

ALFREDO - Sou eu que a faço chorar, D. Carlotinha?

VASCONCELOS - Vem, vem, Henriqueta! Não estamos bem neste lugar!

ALFREDO - É verdade, sofre-se muito aqui.

AZEVEDO - Com efeito, li fait chaud.

ED'UARDO - A honra e a felicidade! Tudo perdido!

D. MARIA (chorando) - E tua mãe, meu filho!

PEDRO - E Pedro, senhor!

VASCONCELOS - Oh! Está quem podia confirmar o que eu disse.

AZEVEDO - Justamente!

EDUARDO - Ah!... Escutem-me, senhores; depois me julgarão.. É a nossa sociedade brasileira a causa única de tudo quanto se acaba de passar.

ALFREDO - Como?

VASCONCELOS - Que quer dizer?

AZEVEDO - Tem razão, começo a entender!

EDUARDO - Os antigos acreditavam que toda a casa era habitada por um demônio familiar, do qual dependia o sossego e á tranqüilidade das pessoas que nela viviam Nós, os brasileiros, realizamos infelizmente esta crença; temos no nosso lar doméstico esse demônio familiar. Quantas vezes não partilha conosco as carícias de nossas mães, os folguedos de nossos irmãos e uma parte das atenções da família! Mas vem um dia, como hoje, em que ele na sua ignorância ou na sua malícia, perturba a paz doméstica; e faz do amor, da amizade, da reputação, de todos esses objetos santos, um jogo de criança. Este demônio familiar de nossas casas, que todos conhecemos, ei-lo.

AZEVEDO - É uma grande verdade.

VASCONCELOS - Tem toda a razão; a ele é que ouvi!

ALFREDO - Sim, não há dúvida.

CARLOTINHA - Eu adivinhava!...

D. MARIA - Como? Foste tu?

PEDRO - Pedro confessa, sim senhora.

D. MARIA - Mas para quê?...

PEDRO - Para desmanchar o casamento de Sr. Azevedo.

AZEVEDO - Que tal!

VASCONCELOS - E para isso inventaste tudo o que me disseste?

PEDRO - E o que disse a Sr. Azevedo. Nhanhá Carlotinha nunca se importou com ele.

AZEVEDO - Assim, a flor?...

PEDRO - Mentira tudo.

ALFREDO E a carta?

PEDRO - Nhanhá mandava a sinhá Henriqueta.

HENRIQUETA - Então é esta!

ALFREDO - Mas a sobrescrita?

HENRIQUETA - Uma brincadeira!

ALFREDO - Perdão, D. Carlotinha!

CARLOTINHA - Não! O que eu sofri!...

EDUARDO - Por que, minha irmã? Todos devemos perdoar-nos mutuamente; todos somos culpados por havermos acreditado ou consentido no fato primeiro, que é a causa de tudo isto. O único inocente é aquele que não tem imputação, e que fez apenas uma travessura de criança, levado pelo instinto da amizade. Eu o corrijo, fazendo do autômato um homem; restituo-o à sociedade, porém expulso-o do seio de minha família e fecho-lhe para sempre a porta de minha casa. (A PEDRO) Toma: é a tua carta de liberdade, ela será a tua punição de hoje em diante, porque as tuas faltas recairão unicamente sobre ti; porque a moral e a lei te pedirão uma conta severa de tuas ações. Livre, sentirás a necessidade do trabalho honesto e apreciarás os nobres sentimentos que hoje não compreendes. (PEDRO beija-lhe a mão.)


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