Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Basta ver o que o seu paizinho fez pelo meu — disse ela, limpando as lágrimas. — O que seria de mim, se ele me faltasse, e se fosse à forca como toda a gente dizia!... Eu era ainda muito nova quando ele estava na enxovia. Teria treze anos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço, se ele fosse condenado à morte. Se o degredassem, então ia com ele; ia morrer onde ele fosse morrer. Não há dia nenhum que eu não peça a Deus que dê a seu pai tantos prazeres como estrelas tem o céu. Fui de propósito à cidade para beijar os pés à sua mãezinha, e vi suas manas, e uma, que era a mais nova, deu-me uma saía de lapím, que eu ainda ali tenho guardada como uma relíquia. Depois, cada vez que ia à feira, dava uma grande volta para ver se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha à janela; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu estava a beber na fonte quando vossa senhoria, há dois para três anos8 deu muita pancada nos criados, que era mesmo um rebuliço que parecia o fim do mundo. Eu vim contar ao pai. e ele caiu ao chão a dar risadas como um doido... Depois nunca mais o vi senão quando vossa senhoria entrou com o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça. porque tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar porque via uma pessoa muito minha amiga a cair numa cova muito funda...
— Isso são sonhos, Mariana!...
— São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando o meu pai matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro noutro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ela, e mais ainda viveu dois meses... A gente da cidade ri-se dos sonhos, mas Deus sabe o que isto é... Aí vem meu pai... Senhor dos Passos! Não vá ser alguma má nova!...
João da Cruz entrou com uma carta que recebera da pobre do costume. Enquanto Simão leu a carta escrita do convento, Mariana fitou os seus grandes olhos azuis no rosto do acadêmico, e, a cada contração da fronte dele, angustiavaslhe a ela o coração. Não teve mão da sua ânsia, e perguntou:
— E noticia má?
— Tu és muito atrevida, rapariga! — disse João da Cruz.
— Não é, não — atalhou o estudante. — Não é má noticia, Mariana, Senhor João. deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que sabem avaliar os amigos.
— Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz.
— Nem eu perguntei, meu pai; foi porque me pareceu que o senhor Simão estava aflito quando lia.
— E não se enganou — tornou o doente, voltando-se para o ferrador. — O pai arrastou Teresa ao convento.
— Sempre é patife duma vez! — disse o ferrador, fazendo com os braços instintivamente um movimento de quem aperta às mãos um pescoço.
Neste, lance, um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Mariana um clarão de inocente alegria.
Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Mariana espontaneamente lhe chegou, dizendo:
— Enquanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver.
"E necessário arrancar-te daí — dizia a carta de Simão. — Esse convento há de ter uma evasiva. Procura-a, e dize-me a noite e a hora em que devo esperar-te. Se não puderes fugir, essas portas hão de abrir-se diante da minha cólera. Se daí te mandarem para outro convento mais longe, avisa-me, que eu irei, sozinho ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É indispensável que te refaças de ânimo para te não assustarem os arrojos da minha paixão. És minha! Não sei de que me serve a vida, se a não sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Teresa, creio. Ser-me-ás fiel na vida e na morte. Não sofras com paciência; luta com heroísmo. A submissão é uma ignomínia quando o poder paternal é uma afronta. Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quase bom. Dize-me uma palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminui as forças do coração".
Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador, e recomendou-lhe que o entregasse à pobre com a carta.
Depois ficou relendo a de Teresa, e recordando-se da resposta que dera. Mestre João foi à cozinha, e disse a Mariana:
— Desconfio de uma coisa, rapariga.
— O que é, meu pai?
— O nosso doente está sem dinheiro.
— Porquê? O pai como sabe isso?
— E que ele pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ela pesava tanto como uma bexiga de porco cheia de vento.
Isto bole-me cá por dentro! Queria oferecer-lhe dinheiro e não sei como há de ser...
— Eu pensarei nisso, meu pai — disse Mariana. refletindo.
— Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores idéias que eu.
— E, se o pai não quiser bulir nos seus quatrocentos, eu tenho aquele dinheiro dos meus bezerros: são onze moedas de ouro menos um quarto.
— Pois falaremos: pensa tu no modo de ele aceitar sem remorsos.
Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era sinônimo de escrúpulos, ou repugnância.
Foi Mariana levar o caldo a Simão, que lho rejeitou como distraído em profundo cismar.
— Pois não toma o caldinho? — disse ela com tristeza.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.