Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Mau! – disse consigo o padre, quando lhe apanhou em cheio as inalações alcoólicas do bafo. – Então é certo, Sr. Tenente-Coronel?
– Se me quer chamar o que eu sou, amigo padre Rocha, chame-me general e conde. Veja.
– Oh! sim? Muitos parabéns, Senhor Conde, muitos parabéns! Quanto folgo! – e lia o sobrescrito.
– Pode abrir e leia alto!
– Muito boa forma de letra, sim senhor... É do próprio punho do Sr. D. Miguel?
– Leia e verá. É dele mesmo. Conheço a assinatura muito bem. Tal qual, sem tirar nem pôr. Vai um copito?
– perguntava com a botija inclinada sobre o cálice.
– Muito obrigado a V. Ex.a Tenho de dizer a missa à Srª D. Andresa às dez horas.
– Leia lá então. Olhe que o nosso homem estudou. Explica-se muito sofrivelmente. Veja o padre que espiga se eu lhe mando uma carta escrita para aí à-toa, Fiem? Bem diz a Nação que ele andava a estudar lá por fora.
– Se dá licença, leio – interrompeu o padre com impaciência curiosa. – Vá lá! – e puxou a cadeira e a botija para junto do capelão.
Velho, honrado e leal amigo, Vasco da Cerveira Lobo, conde de Quadros e general dos meus exércitos. Eu El-Rei vos envio muito saudar. Não podeis imaginar o grande prazer que senti quando ouvi o vosso nome e o li escrito no final da vossa mais que todas preciosíssima carta.
– Fiem? – interrompeu o Cerveira.
– Muito bem – e prosseguiu lendo:
Muitas vezes me lembrou no desterro de onze anos o vosso nome, porque não podia esquecer o de um amigo que tão de perto conheci e tanto me acompanhou nas alegrias da minha mocidade.
– Eu não lhe disse, padre, que o rei e mais eu tínhamos feito pândegas rasgadas quando éramos rapazes?
– Sim, senhor, V. Exª tinha-mo dito.
– Ora aí tem, eu nunca minto. Ah! que bambochatas! – e recordava-se com os olhos num espasmo entre a saudade e as iniciativas da borracheira.
– Continuo, se V. Exª permite.
– Ande lá; Quem te viu e quem te vê, Cerveira Lobo! – disse com tristeza, muito abatido.
Padre Rocha encarava-o com piedade, sentia ânsias de abraçá-lo, e dizer-lhe: – Ande lá. Leia, que o melhor está para baixo.
Logo que cheguei a Portugal chamado por amigos de primeira ordem e fui para aqui enviado, perguntei se ainda éreis vivo. Alegraram-me com a resposta; mas delicadamente me obrigaram a não escrever a alguém, enquanto o triunfo infalível da minha justiça dependesse de certas negociações, pendentes entre as nações da Europa e o meu ministro em Inglaterra, o Ribeiro Saraiva, que muito bem deveis conhecer de nome. Tenho eu sido violentamente acusado pelos meus próprios amigos de ter sacrificado os meus direitos aos meus caprichos, submeti-me às deliberações da Junta de Lisboa e por isso vos não escrevi para vos abraçar e chamar para meu lado.
O Cerveira começou a soluçar com a cara coberta de lágrimas, que destacavam no rubor da epiderme.
– Então que é isso? São lágrimas de alegria? – perguntou o padre. – Se são, deixeas correr.
– Qual alegria! Estou velho.., já não posso fazer nada a favor de el-rei. Este pulso.. – e retesava o braço. O padre assustava-se. – Ora leia para baixo, que está aí uma passagem muito bonita.
Nunca me esqueceu nem jamais esquecerá que éreis o tenente-coronel dos meus queridos dragões de Chaves; que fostes vós o comandante da carga solene que sofreram as tropas liberais numa das primeiras surtidas do Porto; e que fostes traiçoeiramente arrastado pelo infame general Urbano quando com outro infame, o coronel Albuquerque, fizeram acabar desonrosamente na Chamusca os últimos esquadrões do regimento de Chaves. Mas vós, honrado Cerveira, ficastes ileso da ignominia geral, porque rejeitastes o perdão e dissestes que éreis um prisioneiro de guerra, e aceitáveis as consequências da vossa posição.
– Foi assim! – exclamou o Cerveira erguendo-se de salto. – O Saldanha era meu capitão quando eu era cadete; conhecia-me. Mandou-me chamar à sua presença; que me fizesse liberal, e me entregavam a minha espada; e eu (batia duramente no peito com as mãos ambas), eu, padre, eu, aqui onde me vê, disse-lhe que levasse o Diabo a espada para as profundas dos Infernos; que a minha espada tinha-me dado o Sr. D. Miguel I, e que ele me daria outra, quando fosse precisa. Ficaram estarrecidos; e o patife do Saldanha, que tinha sido um realista de todos os diabos, quando era o gajo da Isabel Maria, chamou-me estúpido. E eu, vai não vai, estive a mandá-lo...
Disse o resto. O padre riu-se, e pediu-lhe licença para continuar a leitura, porque se chegava a hora de ir dizer a missa.
– Ande lá.
Desgraçadamente o vosso heroísmo e amor à minha causa legítima não foi muito imitado. Eu perdi a coroa, mas a perda maior foi a de amigos como vós, bem poucos, mas que valem um remo.
– Torne a ler esse bocado que é coisa muito profunda, ó padre Rocha.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.