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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

— O que digo! considerou a viúva. Anda nisto qualquer segredo, que obriga aquele homem a perseguir Clorinda.

E a viúva tinha razão. João Rosa era muito da casa de D. Januária e fazia o possível por agradar a Clorinda, quando apareceu Gregório e com este a sua completa derrota.

Se até aí a rapariga pouco se lhe mostrava propensa, quanto mais depois da chegada do novo pretendente; virou-lhe as costas por uma vez, voltando-se abertamente para o outro. João Rosa ficou furioso; mas, como não era homem de desistir ao primeiro obstáculo tratou de retirar-se e preparar traiçoeiramente as armas para um combate sem tréguas.

Gregório mal podia desconfiar de semelhante coisa, e continuava a cultivar a flor, donde esperava colher o fruto saboroso da sua felicidade. Não faltava uma noite à casa da noiva e aí passava horas da mais doce e tranqüila esperança.

Clorinda agradava-lhe por todos os motivos. Era bonita, simpática, tinha bom coração e parecia muito inteligente; não seria por conseguinte de esperar que desse de si uma dessas mulheres caprichosas, cheia de exigências, sequiosas de luxo e atrofiadas pela vaidade. Uma vez colocada no lar, daria com certeza um belo modelo de virtudes domésticas e conjugais.

Afinal pediu-a, e, como D. Januária guardasse sobre a procedência da filha adotiva o mais rigoroso sigilo, ele por seu lado se absteve de indagações, e guardou para mais tarde qualquer deslindamento. Sabia, entretanto, que a noiva não era filha de D. Januária e sim de uma senhora de Pernambuco, cujo nome nunca lhe disseram.

Ora, o motivo daquelas reservas da velha, já o leitor sabe qual é, nada mais, nada menos, que a bigamia do Leão Vermelho, isto é, do pai de Clorinda e de Gregório, como bem se viu pelas confidências que a este fez o conde no seu palacete da Tijuca.

Ficou todavia marcado o casamento, e os noivos pareciam nada mais esperar do que o dia feliz da sua união.

Amavam-se e amavam-se deveras. Mas, João Rosa não dormia; a princípio lançara mão de meios pequeninos para afastar Gregório de Clorinda; escrevia cartas anônimas, metia em circulação certas notícias escandalosas, que pudessem provocar a desconfiança da parte de D. Januária e mais tarde da noiva. Mas nada disso produziu efeito.

Os dois moços continuavam a amar-se mutuamente, alheios a tudo que se agitava em torno deles; tinham os olhos cravados no disco luminoso da sua felicidade, e o clarão que dai vinha os ofuscava tanto que lhes não deixava perceber mais nada.

João Rosa estudou com paciência o talho da letra do rival, e com tal jeito se houve em falsificá-la, que conseguiu enganar à própria polícia, e, o que é mais extraordinário, à própria viúva Júlia, que de muito se havia já familiarizado com as cartas de Gregório.

O leitor deve lembrar-se daquela carta amorosa, dirigida fantasticamente por Gregório à Menina do Bandolim, e que mais tarde figurou nos autos policiais. Pois essa carta era produto daquela espécie.

Gregório nunca dispensara à Menina do Bandolim mais do que certa simpatia respeitosa, inspirada pelo desejo de perseguir o barão, que a requestava, e talvez um tanto seu espírito romântico, sempre propenso a intervir no que tivesse ressaibos de fantasia. A João Rosa não escaparam as poucas vezes que ele se encontrara e conversara com tal menina, e procurou tirar disso algum partido. Daí a carta; carta, que nunca chegou às mãos da pessoa a quem era dirigida, mas que foi maquiavelicamente parar em poder do chefe de polícia.

Na disso, porém, tem valor algum ao lado do que ainda produziu o espírito perverso e ambicioso de João Rosa.

Antes do aparecimento de Gregório em casa de D. Januária, já ele o conhecia de vista no comércio e sabia de seus negócios; de sorte que, começando depois a persegui-lo na sombra, sabia perfeitamente o rumo dos passos do inimigo e fazia com mais segurança as pontarias do seu ódio.

Mas, ainda assim, nada conseguiu; Gregório parecia protegido por mão misteriosa que o afastava de todos os perigos. Nestas circunstâncias viu João Rosa chegar a véspera do casamento e teve ímpetos de cometer tudo para destruí-lo; lembrou-se dos maiores disparates, pensou em assassinar Gregório, mas faltou-lhe para tanto resolução e coragem.

Na impotência suprema deste desespero, o vaso veio protegê-lo, permitindo que fosse ele um dos primeiros contempladores da vítima assassinada perto dos armazéns de rapé de Paulo Cordeiro. João Rosa sabia perfeitamente que Gregório estava muito a par do dinheiro, que na véspera entrara para aquela casa, dando lugar ao crime; e, como pouco antes havia intencionalmente subtraído o anel de Gregório, sem contudo saber ainda que partido tiraria dele, colocou-o ao lado do morto e tratou em conversas de encaminhar as suspeitas para o dono da jóia.

(continua...)

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