Por Aluísio Azevedo (1884)
O fato ganhou logo circulação no bairro e, à falta de esclarecimentos verdadeiros, Inventou-se toda sorte de legendas. Uns juravam que Filomena não era mulher e sim um grande sonso que namoriscava a esposa do oficial e usara daquele expediente para ir ter com ela; outros afiançavam que a tal estrangeira era pura e simplesmente uma cocotte, sequiosa por chamar sobre si a atenção do público; outros lhe atribuíam intenções políticas. Este notara que ela trazia no corpo as mais belas jóias do mundo, que lhe vira nas orelhas e no colo brilhantes de um tamanho fabuloso; aquele protestava que nunca ouvira uma voz tão estranha e todavia tão melodiosa como a dela; outro dava a sua palavra de honra em como a tal sujeitinha era de uma formosura e de uma graça, que nem as virgenes de Murilo.
Porém a opinião mais seguida rezava que a encantadora e misteriosa estrangeira era nada menos do que a filha de rico negociante português, de cuja companhia desertara por não querer casar com um fidalgo velho e debochado que o pai lhe impunha. Pelo menos era esta a versão que mais se compadecia com o que noticiavam a esse respeito os jornais do dia seguinte:
"GRANDE ATENTADO CRIMINAL, dizia um. A noche a las doce poco más o menos um malhechor de los muchos que infelizmente ínfestan esta hermosa ciudad, intentó introducirse por la ventana de una de nuestras mas acreditadas fondas, com ei fin perverso de raptar una joven extrangera que ali residia esperando su anciano padre, hidalgo portuguez, cuyo nombre nos abstenemos de publicar por motivos fáciles de compreender.
La belia nifia, que casi fue víctima de tanta atrocidad, hallase, a su ruego, depositada em casa dei oficial Sr. D. José Nuflez, hasta que eI competente juez decida de su destino.
Debido aí delicado estado de natural sobre-excitacion nerviosa, la seflorita aludida aun no ha podido explicar los pormenores dei crimen dei cual fue objeto.
El malvado desapareció, pero la policia emplea todos los medios para alcarzarlo y cremos que sus esfuerzos no seran defraudados.
A medida que nos lheguem nuevos pormenores los transmitiremos a
nuestros lectores."
Outros jornais iam mais longe. Um chegou a fazer engenhosas considerações sobre o fato estranho de se achar "desacompanhada num hotel já por si suspeito (o dono do hotel era federalista e o jornal apoiava o governo) uma senhora tão distinta, tão bem tratada e com todas as aparências de donzela! Não estaria aí a ponta de algum importante enigma político?... Em épocas de revolução é preciso desconfiar de tudo e de todos".
Estas notícias excitaram a curiosidade geral. Não faltou quem deixasse de enxergar no misterioso homem da escada um malhechor ordinario — como diziam algumas folhas, e atribuir-lhe fins de grande alcance político.
O dono do hotel foi um desses, e, como bom cantonalista que era, não lhe podia passar despercebido que o seu misterioso hóspede usava um lenço de seda encarnada, uma gravata ainda mais encarnada que o lenço; não podia deixar de notar que nas caixinhas de fósforos do seu protegido encontrara sempre o retrato de alguns dos chefes dos cantões — encontrou o retrato do general Contreras, o de Antonio Galvez e de Duarte e o de Rafael Grulíleu.
— Não há dúvida! pensou ele. Não há dúvida que o homem é dos nossos!
E o fino estalajadeiro, considerando o modo despejado pelo qual o seu correligionário gastava ouro, notando a riqueza de suas bagagens e atentando para o incógnito em que se fechara esse homem, estrangeiro sem dúvida, mas estrangeiro amigo e respeitável, não vacilou em descobrir nele um vulto importante da causa federal, e resolveu pôr-se discretamente ao seu serviço.
— Talvez, quem sabe?... considerou o cantonalista com os seus botões. — Mais tarde, quando subirem os nossos homens, isto até me venha a render um lugar importante na política!
E foi logo ter com o Borges.
— Cidadão! disse-lhe resolutamente. Escusa negar; sei que tenho a honra de refugiar em minha casa um dos cantonalistas mais distintos do mundo!...
Borges recuou de boca aberta.
— Descanse! volveu o outro em tom de mistério. Pode ficar tranqüilo! Não tem de que temer aqui — eu sou seu correligionário.
— Mas, senhor! ... ia a protestar o Borges.
— Nem quero que me diga quais são as suas intenções — as intenções de um cantonalista são sempre as melhores!
O que eu desejo é saber em que lhe posso ser útil! Tenha confiança em mim e fale com franqueza.
E o estalajadeiro, sacando do bolso um barrete frígio, que ele possuía para as ocasiões de levantamento, meteu-o na cabeça e perfilou-se defronte do Borges.
— Bem vejo, bem vejo!... respondeu este, compreendendo a situação e hesitando, na qualidade de homem sério, se devia ou não aproveitá-la em seu favor. Bem vejo, mas...
E franziu o sobrolho. — Era o diabo! Aquilo não lhe podia ficar bem!...
— Compreendo! tornou o outro, guardando o barrete e fazendo um gesto de arrependimento. Fui indiscreto!...
— Certamente! confirmou o Borges. Imagine se, em meu lugar, estivesse aqui um inimigo!...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.