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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Que o foram. Viera-lhes a fortuna do avô materno, um português ambicioso e econômico, que a conquistara no tráfico dos negros africanos; ao morrer legou à filha, ainda criança, para cima de quinhentos contos de réis. Esta, mais tarde, foi solicitada em casamento pelo homem a que pertenceu para sempre, — Lourenço Coqueiro, os maiores bigodes que nesse tempo negrejavam na Corte do Império.

Lourenço, todavia, era já um destroço quando casou. Do que fora e do que possuíra, apenas lhe restava, além do bigode, o hábito de não fazer coisa alguma; nos melhores grupos citava-se, entretanto, o seu ar distinto de fidalgo e falava-se Dom boa vontade de seus dotes pessoais e do seu belo espírito eternamente galhofeiro.

O casamento representou para ele uma tábua de salvação. A mulher adorava-o; tinha-o na conta de um ente superior; jamais vira homem tão lindo de rosto, tão insinuante no falar, tão delicado de maneiras.

Mas, pouco depois de casado, Lourenço começou a desgostá-la: era um nunca terminar de festas; a casa vivia num rebuliço constante; os intervalos das pândegas não davam sequer para a trazer arrumada e limpa. Quando não fossem bailes, eram passeios, piqueniques , manhãs no campo, dias passados na Tijuca ou no Jardim Botânico. Lourenço, às vezes, voltava ébrio, a cachimbar no fundo do carro, e a fazer carícias piegas à mulher, que, ao lado, chorava silenciosamente. Ela, coitada! Tinha muito medo sempre que o via nesse gosto, porque o demônio do homem dava então para brigar, mexia com quem passava, metia a bengala nos cocheiros e quebrava com os pés tudo que encontrasse no caminho.

Tiveram o primeiro filho — Janjão. Criancinha feia, dessangrada, cheia de asma. Até aos cinco anos parecia idiota; passava os dias a babar-se debaixo da mesa de jantar, ao pé de um moleque encarregado de vigiá-lo.

A mão desfazia-se em mil cuidadozinhos com a criança; era esta o seu enlevo, a sua vida. Mas o pai não estava por isso: — temia que o rapaz lhe saísse um maricas. Desejava-o — forte, decidido!

E, com enormes sobressaltos da mulher, tomava-o pelas perninhas magras e suspendia-o no ar.

— Os homens assim é que se fazem, minha filha! Dizia ele a rolar o pequeno entre as mãos.

E não admitia igualmente que o menino tivesse outra cama que não fosse um enxergão. Não o queria calçado, nem vestido e, em vez de estar ali a babar-se defronte do moleque, seria muito melhor que fosse correr para a chácara.

— Ele pode se machucar, Lourenço, cair! Observava a esposa timidamente.

— Pois deixa-o cair! Deixa-o machucar-se! Quanto mais trambolhões levar em pequeno, melhor depois se agüentará nas pernas!

— Mas ele é tão fraquito, coitadinho!

— Por isso mesmo! Por isso mesmo precisamos torná-lo forte! E previno-te de que já é mais que tempo de acabar com esse insuportável tratamento de “Janjão”! Aqui não há janjões! Meu filho chama-se — João! Tem o nome do avô, um herói, um fidalgo! Não desses que hoje se fazem aí a três por dois, mas dos legítimos, dos bons! Entendes tu? — dos bons!

E inflamava-se, como sempre que se referia à sua procedência. Vinha, com efeito, de fidalgos: era sobrinho bastardo de um conde português.

À mesa exigia que o filho lhe ficasse ao lado e obrigava-o a comer bifes sangrentos e tomar vinho sem água.

Um dias a esposa revoltou-se:

— Pois tu vais dar conhaque ao menino, Lourenço?! exclamou ela escandalizada.

— Deixa-o cá comigo, senhora! Eu sei o que faço!

— Olha que isso pode sufocá-lo, homem de Deus!

— Qual sufocar o quê! Por essas e outras é que, para os estrangeiros, não passamos de “uns macacos”!

A mulher que se desse ao trabalho de saber como se fazia na Europa a educação física das crianças! Queria que ela visse a criação que tiveram D. Pedro e D. Miguel! E eram príncipes! — Entendia? — eram príncipes legítimos!

E voltando-se para o filho, gritou, arregalando os olhos e soprando os bigodes, que já então se faziam cinzentos:

— Tu não queres ser um homem forte, João?! Queres ser um descendente degenerado de teus avós?!

Janjão olhou o pai com medo, e abriu a chorar.

— Aí tens o que procuravas! disse a mulher, correndo para junto do filho. — Assustar desse modo a pobre criança!

Janjão chorava mais.

— Isso! Isso é que o há de pôr pra diante! Berrou Lourenço encolerizandose. Beba já esse conhaque, menino!

— Deixa a criança! ...suplicava a mãe. — Olha como treme o pobrezinho!... o coração parece que lhe quer saltar! ...

— E tomou-o no colo.

— É melhor mesmo que leves daí esse mono! Rira-mo dos olhos! Já estou vendo a boa lesma que isso há de dar! — Mães ignorantes!..

(continua...)

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