Por José de Alencar (1878)
Voltara ele do gabinete grave e sombrio; despedira-se de Amália e da dona da casa com um aperto de mão, cortejara as outras pessoas e retirou-se sem uma explicação daquele procedimento estranho.
Fora tal a surpresa, que ninguém, nem D. Felícia, tivera a presença de espírito necessária para fazer a menor observação. Não havia para este fato senão uma interpretação; e foi a que todos lhe deram imediatamente, apesar de a considerarem inadmissível. Hermano tinha sofrido uma repulsa do Sr. Veiga.
Mas como era isso possível, sabia-se do desejo que tinha o capitalista de casar a filha; e dos avanços que a família fazia ao pretendente, e tão a contento da moça?
D. Felícia foi ao encontro do marido que entrava na sala e perguntou-lhe a meia voz, com sofreguidão, o que se havia passado com Hermano.
— Nada, respondeu o Sr. Veiga mais admirado do tom do que da pergunta. Ofereceu-me recomendações para a Europa e prometeu dar-me algumas informações úteis para a viagem.
— Só? perguntou a senhora.
— Só.
O pasmo foi geral. D. Felícia não se pôde conter.
— Não se precisa das suas informações; ele que as guarde e nos livre de sua presença.
O Borges encartou a sua mofina:
— Eu sempre o tive por maluco.
O Sr. Veiga dissera a verdade. Quando Hermano estava no gabinete, o capitalista estava no meio de uma adição.
Para não perder o trabalho começado, e usando já da liberdade de futuro sogro, pediu ao hóspede o favor de esperar um instante, dois minutos, enquanto fechava a conta.
Mal sabia ele que estes dois minutos iam decidir da felicidade da filha.
Hermano esperou, com a emoção que assalta todo homem de caráter ao tomar tão grande responsabilidade. Não era a primeira vez que tinha essa emoção. Lembrou-se do momento em que pedira a mão de Julieta. O passado, que parecia morto, ressurgiu e apoderou-se dele.
Ficou estupefato, vendo-se ali naquela casa e encontrando-se nessa última fase de sua existência, que ele se espantava de ter vivido. Parecia-lhe sonho esse período. Não compreendia como ele, o marido de Julieta, acreditara que pudesse nunca substituí-la por outra mulher.
O capitalista concluiu a sua conta e voltou-se para a visita. Trocaram algumas palavras sobre o calor que tinha feito durante o dia, e calaram-se.
— Está próxima a sua viagem à Europa? disse Hermano depois de uma pausa.
— É verdade! Daqui a dois meses.
— Sabe que já fiz esta viagem? Posso dar-lhe algumas informações úteis.
Hermano falou um quarto de hora sobre Paris e Londres sem consciência do que dizia; o Sr. Veiga ainda absorvido nas suas parcelas de caixa não lhe prestou a menor atenção; e assim terminaram a entrevista.
Os convidados compreenderam a conveniência de retirarem-se mais cedo; o que, porém, os decidiu a usar dessa atenção foi o desejo de espalharem logo, naquela mesma noite, a notícia do rompimento, pois outra coisa não era o que se acabava de passar.
O Teixeira, que chegara tarde, quis atenuar o procedimento do amigo, e teve com D. Felícia longa explicação.
Parece que tocou nas excentricidades do viúvo atribuindo a elas a sua hesitação, o que a senhora moralizou com esta exclamação:
— Então bem diz o Borges. É um maluco e foi uma felicidade que eu o descobrisse, antes de dar-lhe minha filha.
Amália tinha-se recolhido. A mãe foi achá-la pensativa:
— Tu sabes quanto desejo ver-te casada, Amália; mas antes fiques toda a vida solteira, do que teres a desgraça de aturar um doido.
— A sua doidice, mamãe, também eu a tenho. Ele ama!...
— A ti? perguntou D. Felícia com ironia.
— A mim também; mas não me ama bastante para fazer-me sua mulher.
— Não te faltam maridos.
Amália, durante as suas breves relações com Hermano, costumava à tarde sentar-se no jardim, em um caramanchão que ficava perto da grade, mas oculto pelas trepadeiras. Ali viam-se de passagem, conversavam um instante, e separavam-se para de novo reunirem-se à noite na sala.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.