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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Isabel — Não, Senhor, vá, meu pai. Se me dispuser, eu irei com Clarinha. (Rita afasta-se)



CENA III

Isabel, Iaiá e Miranda

Isabel — Minha filha!... Onde esteve?... Já viu Papai?... Ele beijou Iaiá hoje?... Beijou: onde? aqui! (Beija com efusão a face da menina) Iaiá vai ficar sem sua Mamãe... Vai... Ela não pode viver muito tempo não!... Já lhe faltam as forças. (Pausa) Quando Mamãe morrer, Iaiá chora?... Não?... Inocente. (Entra Miranda). Não sabes, não saberás nunca, o que tua mãe sofreu neste mundo, minha filha! Por que Deus consentiu que me salvasses a vida, naquela noite fatal?...

Miranda — Por que, Senhora? Eu respondo por ela.

Isabel — Não o tinha visto; desculpe-me, Senhor.

Miranda — Deus, salvando-nos a vida naquela noite, queria que aqueles que já não podiam viver um para o outro, vivessem ao menos para esta menina inocente; que a mãe respeitasse a pureza de sua filha, já que a mulher não tinha respeitado o nome de seu marido. Mas assim não aconteceu.

Isabel — É preciso, meu Deus, que eu tenha descido muito para que o meu juramento, as minhas lágrimas, os meus protestos, tudo, até o meu suplício não possa destruir uma simples suspeita. (Deixa IAIÁ)

Miranda — O que eu vi há um ano, o que tornei a ver ontem é uma simples suspeita, Senhora?

Isabel — Viu aquele homem?... Não, não é possível. Viu uma flor que ele deixara cair por acaso, quando ali estávamos todos; uma flor que Clarinha atirara ao chão gracejando. Ah! eu não podia pressentir que espinhos tinha aquela rosa para minha alma. É a prova que. me condena; e eu não posso dizer contra ela, uma palavra, sem mentir!

Miranda — Mas, ali, naquela noite, estava um homem. Vi-o, desta vez não é uma suspeita; vi-o saltar da janela; não ouvi as palavras que lhe disse; creio, porém, que lhe apertou a mão, e a Senhora tinha lágrimas nos olhos. Aquele homem não era o fátuo desprezível..

Isabel — Pelo que há...

Miranda — O fátuo que apesar de a haver esquecido, a Senhora quis ontem salvar com risco de sua vida?...

Isabel Pelo que há de mais sagrado para mim neste mundo, por sua honra, e por minha filha, Senhor... Aquele homem não era o Sales.

Miranda — Quem era ele então?... Quem?... (Pausa) Não responde!... É a terceira vez que lhe pergunto, que lhe peço... E sempre a mesma mudez. O nome desse homem, Senhora?

Isabel — Não exija isto de mim. Esse nome, nunca, nunca o ouvirá de minha boca. Prefiro morrer julgando-me o Senhor culpada, a defender-me por tal preço.

Miranda — E quer que a acredite?... Meu espírito não pode compreender semelhante enigma. A Senhora é inocente: o que eu vi foi apenas ilusão, uma aparência, um fato sem significação. Que motivo pode haver para ocultar o nome desse homem? Para que esse mistério? (Pausa) Não mo diz? Fale! Convença-me, Senhora!... Não desejo, não peço outra cousa; arranque-me esta suspeita! Eu lhe suplico! Por piedade!... Invente um pretexto, engane-me se for preciso! Talvez eu possa iludir-me! (Pausa) Bem sei que tenho razão quando quero, e não posso crer. Sua alma é nobre, revolta-se contra a falsidade: não pode, nem mesmo sabe mentir!

Isabel — E por que não me julga assim, quando lhe juro por minha alma que nunca traí meus deveres? É justo isso? Diga, Senhor!

Miranda — Mas por que razão se obstina em guardar silêncio?... Teme acaso que eu assassine esse homem? Que perpetre um crime?... Já o teria feito há muito!... nesse miserável que eu suspeito?... Outro motivo... Qual pode ser?... Não posso atinar! Encerra porventura esse nome algum segredo terrível para mim?

Isabel — Oh! não procure adivinhar!...

Miranda — Explique-se, Senhora. Eu lhe imploro! Uma palavra ao menos, uma só... Não por mim. A tranqüilidade de uma família vale bem esse sacrifício.

Isabel — Quer saber?... Quer saber, Senhor, a razão por que não lhe revelo esse nome?... É porque tenho medo... Sim, tenho medo! Em face do outro... daquele que o Senhor viu, não poderia sofrer o seu desprezo, como teria forças para o suportar diante desse... desse que o Senhor supõe e não é não, eu o juro!... O suplício seria mais cruel ainda! Sinto que não resistiria, não, meu Deus!... É esta a razão. Está vendo; não há segredo, nem mistério algum... Fraqueza minha...

Miranda — Então?... Esse outro... Verdadeiro, cujo nome oculta... Esse... a Senhora ama-o?

Isabel — Eu?...

Miranda — Não acaba de confessá-lo?

(continua...)

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