Por José de Alencar (1857)
CARLOTINHA - O Sr. Alfredo diz que tem provas de que amo outro homem... Reclamo essas provas.
ALFREDO - Não é possível, D. Carlotinha! Na minha boca seriam uma exprobração ridícula e ofensiva. Guardo-as comigo e respeito os sentimentos que não soube inspirar.
CARLOTINHA - O senhor não mas quer dar?... Pois bem, serei eu que provarei o contrário!... Eis a prova... (Estendendo-lhe a mão.)
ALFREDO - Ah!... (Tomando a mão.) Mas essa mão não pode ser minha!
CARLOTINHA - Por quê?
ALFREDO - Porque escreveu a outro e lhe pertence!
CARLOTINHA - Meu Deus! Mano, Henriqueta!...
EDUARDO - Que tens?
CARLOTINHA - Ele diz que eu amo a outro, que lhe escrevi!... Quando a ele...
ALFREDO - Não devia dizê-lo; mas foi o amor ofendido, e não a razão, que falou.
EDUARDO - Sei que é incapaz de tornar-se eco de uma calúnia; para dizer o que acabo de ouvir é preciso que tenha certeza do que afirma. A quem escreveu minha irmã, Alfredo?
ALFREDO - Perdão!... Não devo!
EDUARDO - Exijo!...
ALFREDO - Ao Sr. Azevedo!
HENRIQUETA - E impossível!
CARLOTINHA - Ele acredita!
EDUARDO - O senhor viu essa carta?
ALFREDO - Vi essa carta sair da mão que a escreveu e ser entregue àquele a quem era destinada! (Rumor de passos.)
EDUARDO - Silêncio senhor!
CENA XV
Os mesmos, AZEVEDO
AZEVEDO (a EDUARDO) - Cher ami! (A meia voz) Acabo de ter uma cena bastante animada, échauffante mesmo!
EDUARDO - Por que motivo?
AZEVEDO - Eu lhe digo. (Afastam-se.) Rompi o meu casamento com Henriqueta; e acabo de participá-lo ao Sr. Vasconcelos.
EDUARDO - Ah!... E que razão teve para proceder assim?
AZEVEDO - Muitas; seria longo enumerá-las. Aquele velho é um miserável e sua filha uma namoradeira!...
EDUARDO - Sr. Azevedo, esquece que fala de amigos de nossa casa.
AZEVEDO - Perdão, mas não podia deixar que esses dois especuladores abusassem por mais tempo da minha boa fé.
EDUARDO - Se continua desta maneira, sou obrigado a pedir-lhe que se cale.
AZVEDO - Bom; não me leve a mal este desabafo. O fato é ue o casamento está completamente desfeito, e que eu posso dizer como Francisco I: - Tout est perdu, hors l'honneur.
EDUARDO - E a dívida de dez contos?
AZEVEDO - Ele a pagará; não lhe deixarei um momento de sossego! Permita que cumprimente sua irmã.
ALFREDO - Não devo ficar, Eduardo, sinto que não terei é sangue frio necessário para dominarme.
EDUARDO - Espere, meu amigo.
CARLOTINHA - Sim, eu lhe peço, fique.
ALFREDO - Para quê? Para ser testemunha...
CARLOTINHA - Para ser testemunha de minha inocência!
HENRIQUETA - Que vais fazer?
CARLOTINHA - Apelar para a consciência de um homem que eu julgo honesto.
EDUARDO - Minha irmã! Deixa-me esse penoso dever! Tu és uma moça...
CARLOTINHA - Não, Eduardo, para ele eu sou criminosa. É justo que me defenda.
AZEVEDO - Estou completamente embêté!
CARLOTINHA - Sr. Azevedo, peço-lhe que declare se algum dia recebeu uma carta minha!
AZEVEDO - Comment!... Uma carta sua!... Nunca!...
ALFREDO (a meia voz) - O senhor mente!
CARLOTINHA (a HENRIQUETA) - Ainda duvida!
AZEVEDO (a EDUARDO) - Não estou na casa de um amigo?
EDUARDO - Sim; e o insulto é feito a mim!
ALFREDO - Perdão, Eduardo! Não sei o que faço, o meu espirito se perde!
AZEVEDO - Falta-lhe o savoir vivre!
CARLOTINHA - Assim o senhor dá sua palavra de honra! Não recebeu essa carta?...
AZEVEDO - Se eu a tivesse recebido, há muito teria vindo apresentar-lhe o pedido respeitoso de um amor profundo; e não esperaria por esse momento.
CARLOTINHA O senhor ama-me então?
AZEVEDO - É verdade!
CARLOTINHA - Pois eu... eu o desprezo!
AZEVEDO - Ah!
EDUARDO - Minha irmã!...
AZEVEDO - O desprezo é o direito das senhoras e dos soberanos.
HENRIQUETA - Mas, então, eu sou livre? A minha promessa...
AZEVEDO - Já foi restituída a seu pai!
HENRIQUETA - Obrigada, meu Deus!
CENA XVI
Os mesmos, D. MARIA
D. MARIA - Que se passa aqui, senhores?
EDUARDO - Ah! Minha mãe! A nossa casa está sendo o teatro de uma cena bem triste!
D. ~ - Mas por quê? Aconteceu alguma coisa? Carlotinha, que tens?
CARLOTINHA - Nada, mamãe.
D. MARIA - Todos tão frios, tão reservados!... Que quer dizer isto, Eduardo?
CENA XVII
Os mesmos, VASCONCELOS, PEDRO
PEDRO - Barulho grande, Sr. Vasconcelos!
VÁSCONCELOS - Deixe-me! Estou furioso!
HENRIQUETA - Meu pai, é verdade?
D. MARIA - O senhor está tão perturbado!
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.