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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Pois, então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miúdo, e trata-lhe da ferida; vinagre e mais vinagre, quando ela estiver assim a modo de roxa. Conversa com ele, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que não é bom quando se está fraco do miolo. E vossa senhoria não tenha aquelas de cerimônia, nem me diga à Mariana — a menina isto, a menina aquilo. É — rapariga, da cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, da cá as compressas — e nada de políticas. Ela está aqui como sua criada, porque eu já lhe disse que, se não fosse o pai de vossa senhoria, já ela há muito tempo que andava por aí às esmolas, ou pior ainda. E verdade que eu podia deixarlhe uns benzinhos ganhos ali a suar na bigorna há dez anos, afora uns quatrocentos mil réis que herdei de minha mãe, que Deus haja; mas vossa senhoria bem sabe que, se eu fosse à forca ou pela barra fora, vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas.

— Vossemecê tem uma casinha sofrível — atalhou Simão — pode, querendo, casar a sua filha numa boa casa de lavoura.

— Assim ela quisesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da casa da Igreja a queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e eu, a falar a verdade, sou só e mais ela, e também não tenho grande vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se não fosse ela, fidalgo, muitas asneiras tinha eu feito! Quando vou às feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo sozinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe ao capacete do alambique; puxa-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me fora do arraial. Se alguém chama para beber mais um quartilho, ela não me deixa ir, e eu acho graça à obediência com que me deixo guiar pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ela me pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguesia sou.

Mariana ouvia o pai. escondendo meio rosto no seu alvíssimo avental de linho. Simão estava-se gozando na simpleza daquele quadro rústico, mas sublime de naturalidade.

João da Cruz foi chamado para ferrar um cavalo, e despediu-se nestes termos:

— Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como quem é e como se fosse teu irmão ou marido.

O rosto de Mariana acerejou-se quando aquela última palavra saiu, natural como todas, da boca de seu pai.

A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.

— Não foi nada boa esta praga que lhe caiu em casa, Mariana! — disse o acadêmico — Fazerem-na enfermeira dum doente, e privarem-na talvez de ir costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam...

— Que se me dá a mim disso? — respondeu ela, sacudindo o avental, e baixando o cós ao lugar da cintura com infantil graça.

— Sente-se, Mariana; seu pai disse-lhe que se sentasse... Vá buscar a sua costura, e dê-me dali um folha de papel e um lápis que está na carteira.

— Mas o pai também me disse que o não deixasse escrever... — replicou ela, sorrindo.

— Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.

— Veja lá o que faz... — tornou ela, dando-lhe o papel e o lápis — Olhe se alguma carta se perde, e se descobre tudo...

— Tudo o quê, Mariana? Pois sabe alguma coisa.?

— Era preciso que eu fosse tola... Eu não lhe disse já que sabia da sua amizade a uma menina fidalga da cidade?

— Disse. Mas que tem isso?

— Aconteceu o que eu receava. Vossa senhoria está ai ferido, e toda a gente fala nuns homens que apareceram mortos.

— Que tenho eu com os homens que apareceram mortos?

— Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens eram criados do primo da tal senhora? Parece que vossa senhoria desconfia de mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomara que ninguém soubesse, para que meu pai e o senhor Simão não tenha alguns trabalhos maiores...

— Tem razão, Mariana; eu não devia esconder de si o mau encontro que tivemos.

— E Deus queira que seja o último!... Tanto tenho pedido ao Senhor dos Passos que lhe dê remédio a essa paixão!... O pior futuro é o que ainda está por passar...

— Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra logo que esteja bom, e a menina da cidade fica em sua casa.

— Se assim for, já prometi dois arráteis de cera ao Senhor dos Passos; mas não me diz o coração que vossa senhoria faça o que diz...

— Muito agradecido lhe estou pelo bem que me deseja — disse Simão, comovido. — Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.

(continua...)

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