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#Romances#Literatura Portuguesa

A brasileira de Prazins

Por Camilo Castelo Branco (1882)

– Isso acabou – respondeu com desdém, irritado. Agora não a queria nem que ele a dotasse com três contos; entenda você o que lhe eu digo, tio Manuel, nem com seis contos! Você não sabe quem eu sou, mas brevemente o saberá. Pouco há-de viver quem o não vir.

– Não sei quem você é? Ora essa... Já lhe disse que você é homem capazório, honrado...

– Quero cá dizer outra coisa... Você não entende... – E ouvindo abrir uma janela: – Lá está o fidalgo... Deixe-me lá ir.

E. afastando-se do caseiro, ia dizendo consigo:

– Que tal está o labroste! Um homem vem de falar com el-rei, e topa com uma cavalgadura destas! Canalha ordinária!

VIII

Quando Zeferino entregou a carta com um gesto soberbo da sua intervenção entre o fidalgo e o rei, o Cerveira olhou para o sobrescrito com estranheza, e disse que a carta não era para ele; e lia:

– Ao conde de Quadros, general do exército real. Isto que diabo é?

– É isso mesmo, fidalgo; isso que aí está vi-o eu com estes olhos escrever el-rei o Sr. D. Miguel, ontem à noite, das nove para as dez. O Senhor Conde é vossa excelência mesmo, e eu sou sargento-mor das Lamelas; lá ficou o meu nome no livro e mais o de meu pai, que foi despachado coronel por el-rei.

–O teu pai?! Coronel!...

– É como diz.

– Ora essa!... coronel! caramba! – disse, despeitado; parecia-lhe iníqua a promoção; mas ocorreram-lhe os velhos caprichos análogos de el-rei; as injustiças de algumas patentes superiores desde 1828 até à convenção. E abriu a carta com moderado entusiasmo. Parecia que a sua razão imergida, restaurada depois de duas horas bem roncadas, de papo acima, queria duvidar da autenticidade de um D. Miguel que fazia sargento-mor um pedreiro, e coronel um reles alferes que passara das milícias de Barcelos para infantaria. Achava natural e plausível em si as charlateiras de general e a coroa de conde; mas as mercês feitas aos dois plebeus... Caramba! – Uma intermitência de juízo. Enfim, abrira a carta e lera para si com uma custosa interpretação, ora aproximando, ora distanciando o papel dos olhos.

A pouco e pouco, desavincou-se-lhe a fronte carregada, iluminaram-se-lhe os olhos, coava-se-lhe no sangue o suave calor do convencimento. Lia coisas que lhe evidenciavam um Sr. D. Miguel autêntico, o autor da carta. Conhecia-lhe a letra. Lembrava-se muito bem; era assim; e então a assinatura – Miguel, Rei – era tal qual. Chegou a um certo período que devia impressioná-lo mais pela mudança súbita que lhe transluziu no semblante. Depois dobrou vagarosamente a carta.

O Zeferino esperava a confidência do conteúdo; mas o fidalgo, apesar da nobilitação do sargento-mor, continuava a considerá-lo o pedreiro que lhe fizera os canastros e reconstruíra as paredes da cozinha. Não estava assaz bêbedo para confidências.

– Conta lá o que te aconteceu, Zeferino. – E sentando-se, meteu o saca-rolhas à botija de Holanda.

O Zeferino contou tudo com muita particularidade. Descreveu a figura do rei, as barbas que metiam respeito; pausava com eles os dizeres, dando ao braço direito, com a mão aberta, um movimento compassado. Repetiu, piorados na forma, os elogios que o Sr. D. Miguel fizera ao seu amigo Cerveira; que, quando estava a escrever. perguntou se o conde de Quadros tinha Limos.

O fidalgo sentia muita sede. Misturava de meias a genebra com água açucarada. E ao passo que lhe sorriam as alvoradas do seu mundo fantástico, e as trevas da razão se desteciam, crescia- lhe o interesse na narrativa do pedreiro. Reperguntava pormenores já respondidos. Não havia já no seu espírito passageira sombra de dúvida. Era o seu amigo D. Miguel quem estava em São Gens de Calvos; e, se ele fizera coronel o plebeu das Lamelas e sargentomor o pedreiro, foi decerto com a intenção de o obsequiar a ele, para lhe mostrar com que prazer recebera a sua carta.

– Sua Majestade disse-me que estimava lá ver-me com outra carta do Senhor Conde, enquanto não ia lá abraçá-lo – esclareceu Zeferino.

– Tens de lá ir amanhã. Aparece cedo.

– Pronto, senhor.

– Mas, se vais para casa, passa pelos Pombais e dá parte ao padre Rocha que preciso falar-lhe hoje à noite ou amanhã cedo.

O padre Rocha preferiu vir de manhã, antes dos transportes cívicos do tenentecoronel. Repugnava-lhe o ébrio e professava uma sincera compaixão pelo homem.

Pouco depois do Sol nado, o capelão de D. Andresa estava em Quadros com um grande interesse. Queda salvar o vizinho de uma ratoeira armada ao seu dinheiro, ou convencer-se de que realmente o príncipe proscrito estava no concelho da Póvoa de Lanhoso.

Chegara um pouco tarde. O Cerveira Lobo já tinha matado o bicho copiosamente, um bicho muito antigo, invulnerável, que não se afogava em pouca genebra.

– Não há dúvida, padre Rocha! Cá está o homem! – exclamou o fidalgo.

(continua...)

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