Por Coelho Neto (1898)
Quando a maruja teve a feliz noticia prorompeu em festivos clamores saudando o capitão temerário; e a nau empavezou-se vistosamente, resoaram os instrumentos e, de todas as naus que se vinham chegando á capitanea, desmantelladas, com os costados mostrando as feridas ganhas na tor-menta, partia o mesmo brado triumphal: — E' a índia ! E' a India!
Aves passavam nos ares e fugiam aturdidas com os estrondos das bombardas e, como andassem lantéas de pesca cruzando junto dos vasos, os de bordo saudavam festivamente os pescadores fallando-lhes como se os indios espantados pudessem perceber o que diziam.
Mas, atravez da celeuma, soaram lentas badaladas; os clerigos appareceram revestidos dos seus habitos, com a imagem do Christo e o Gama, que até então parecera esquecido do seu Deus, chegou-se á tolda e, ajoelhando-se, sem a espada e descoberto, entre os seus homens ajoelhados e cabisbaixos, de mãos postas, contricto rezou com elles acompanhando as orações que os clerigos entoavam á medida que, na proa, outros marujos, com um canto guaiado, iam desprendendo a'ancora; de repente houve um rangido secco de amarras que corriam nos escouvens salitrados e um choque n'agua — a ancora mergulhara. Estavam fundeados diante da terra da especiaria. Era o dia 20 de maio de 1498.
O Gama, então, sem levantar os olhos para os homens que o cercavam, subio ao castello e ficou-se a contemplar o mar, o grande mar mysterioso que elle havia vencido e o piloto, que alli estava, vendo duas lagrimas rolarem pelas barbas do navegante e como se estranhasse essa fraqueza n'aquelle homem formidavel que não tremera nos momentos mais arriscados, ficou a contemplal-o mudo e com assombro.
O Gama, porém, voltou-se e tremulo, n'uma viva emoção, mandou arvorar a bandeira real como para annunciar-se aos da terra e elle mesmo, veneradamente, foi, de uma em uma, accendendo as lâmpadas que illuminavam os retábulos,
O porto estava vasio, barcos miudos apenas por elle andavam com as suas velas de palma e, sob a chuva que caía miuda, pondo uma tela diante da vista, Calecut foi desapparecendo como um sonho que se houvesse esvaecido. Veio á noite, porém, clara, de luar, e a India alli se mostrou formosa, adormecida nos mares, dominada pelas naus como a princeza da bailada que, depois de quebrado o encanto que a guardava, apparecia linda e solitaria, á espera do beijo que a devia despertar para o amor. E o Gama, no castello da nau que se balouçava, com a face na mão, contemplava aquella maravilha emquanto a maruja, grata ao Senhor, entoava contente a oração da noite.
De quando em quando, no silencio das horas mortas, as vigias de uma nau bradavam para as da outra: — A India! e o Gama, que velava pensativo, com o espirito longe, na Patria bem querida, estremecia, ouvindo aquelles brados e baixinho, como um echo longinquo, repetia suspirando : — A India !... com a alma a fugir-lhe para aquella terra branca e verde que era o sonho dos Reis.
VENIA
Escrevendo esta narrativa, em tempo sobremodo escasso, ative-me mais estreitamente ao Roteiro indo por elle posto que os olhos fossem na epopéa — um foi, a bem dizer, o caminho da minha aventura e foi o poeta a minha estrella polar.
Em certos episodios, talvez, melhor andasse se quizesse seguir as indicações de Gaspar Corrêa, no geral eivadas de imaginação mas, subordinei-me ao ingenuo marujo que traçou, em singela linguagem, as peripécias da temeraria travessia.
Em Melinde, no ponto relativo á tomada cio piloto, parece-me violento o proceder do Gama visto como, havendo o regulo sempre demonstrado bons desejos, justo seria que o navegador com elle usasse de mais cordura ou, digamos: de mais diplomacia, buscando razões mais brandas para haver o homem necessario ao seu discurso.
Posto que todos affirmem que a travessia do mar Indico foi afortunada e com ventos felizes dei a tormenta (e ainda tenho por mim o poeta) para maior realce da bravura temeraria do Gama no momento em que, para conter a revolta, arroja resolutamente ao mar as cartas e os instrumentos.
De resto parece-me que, se a navegação houvesse sempre sido bonançosa, não haveria tão impetuoso levante a bordo simplesmente por não ver a maruja as extremas de alguma terra em mares tão dilatados.
Emfim, se ha fantasia, tenho a minha resalva demais, ella repousa sobre a absoluta verdade — a flor surgio da terra. O proprio mar tem a sua Morgana.
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.