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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Misericórdia e pelos dados obtidos pelo senhor promotor público, sabe-se que o Castro Malta, recrutado, o Castro Malta recolhido ao hospital, o Castro Malta falecido, enterrado e não encontrado no cemitério, nada tem de comum com as pessoas de que me falaram vossemecês!

- Ora essa! - resmungou minha sogra. - Ora essa! Mas em todo caso, não tenho outro remédio senão acreditar nas suas palavras, porque o Castro de que me fala o Sr. Quintino é um Castro morto, ao passo que o Castro, de que eu falava, o meu rico Malta, está mais vivo do que um azougue!

- Bem! - retorqui. - Mas tudo isso não me esclarece no ponto em que eu desejo ser esclarecido! Para mim, tanto se me dá que o Castro Malta fosse assassinado na Polícia, como se morresse tranqüilamente sobre sua cama, ao lado de sua mulher e de seus filhos; o que me interessa, o que me preocupa, é descobrir quem é e onde paira o Castro Malta que seduziu minha mulher.

- Por esse respondo eu! - atalhou a velha.

- Então responda! - disse, avançando sobre ela.

- Ei-lo! – exclamou a velha apontando para o meu hóspede que dormia já a sono solto estirado na cadeira.

- Este?! - perguntei pasmo. - Não! É impossível! Não creio.- Pois então, ouça e verá!

XV

A velha endireitou os óculos, fungou três vezes, repuxou as saias nos rins e disse, apontando para o ressuscitado:

- Eis o autor da questão!

- Este? - bradei, espantado. - É impossível!

- Vai ver - replicou a velha -, vai ver!

- Não creio - repliquei. - É impossível, repito!

- Impossível o quê? - perguntou-me o acusado.

- Impossível que seja o senhor o autor da grande intriga que se tem feito a respeito de Castro Malta, de mim e de todas as pessoas que se interessam nesta questão.

- Que questão? - perguntou-me o Castro.

- Ora! que diabo de questão pode ser? A questão Castro Malta.

- Castro Malta?

- Pois o senhor não conhece a questão de que lhe falo?

- Eu não conheço senão o que me ensinou o Precioso, o meu mestre.

- Visto isso – acrescentei -, o senhor não está a par da grande questão que nos trouxe aqui!

- Juro-lhe que não.

- Não sabe do que se trata?

- Não!

- Nunca escreveu cartas a minha mulher?

- Nem a sua, nem a mulher alguma!

- Então - exclamei, voltando-me para Dona Leonarda -, então como afiançou a senhora que este homem era o autor de toda aquela trapalhada?

- Por uma razão muito simples, porque tenho as provas de que ele é o único autor da história.

- Apresente-as.

- Não é preciso - atalhou Quintino -, eu explico tudo.

- Este senhor - acrescentou, voltando-se para mim. - Este senhor não é mais que um simples romancista.

- Como? - disse eu.

- Sim, não é mais do que um simples romancista. A sua intenção dele era somente fazer um romance, um romance para A Semana e, na falta de melhor assunto, agarrou o meu!

- O seu?

- Sim, o meu, a minha questão, o meu Castro Malta.

- Como é lá isso? - perguntei.

- Pois não - respondeu-me Quintino. - Pois não! O senhor entendeu fazer um romance de uma questão séria, que levantei pelO Paiz e começou a escrever cartas disparatadas e tolas para A Semana.

- Eu? - interroguei.

- Sim, sim, o senhor! - bradou o chefe da redação dO Paiz agarrando-me pelo braço. - O senhor! que, sem o menor escrúpulo quis fazer de um assunto sério um pretexto para novelas de mau gosto!

- Repare que me ofende!

- Qual ofende, nem meio ofende! O senhor já ouviu muito pior do Jornal do Commercio e nem por isso deu o cavaco.

- Sim, mas isso é outro caso! O Jornal não é responsável por cousa alguma. Ele não sabe o que faz, coitado!

- Em todo caso, voltando à questão, posso afirmar que o senhor não passa de um especulador que se apoderou de uma questão que lhe não pertence. O senhor nunca foi casado; nunca teve o emprego público de que falou na sua carta; nunca teve relações com a tal Jeannite de que por várias vezes tratou, e muito menos teve relações com empregados da Santa Casa de Misericórdia.

- O senhor está me ofendendo!

- Ora qual, meu amigo, um romancista nunca se pode dar por ofendido com estas coisas; um romancista é um grande mentiroso, que vive a empulhar o público com as suas patranhas. Hoje afirma que o diabo é cor do céu e amanhã jura que Deus é cor de fogo!

- Eu nunca fiz em minha vida afirmações dessa ordem!

- Se não fez dessa ordem fez piores. Leia as suas próprias obras, estude-as com atenção; verá que não é mentira o que digo.

E o Sr. Quintino, voltando-se para minha sogra, acrescentou:

- Creia, minha senhora, que falo verdade. Este homem que está ao seu lado é um intrigante, é um enredador, é finalmente um romancista!

- Eu?!

- Sim! sim, o senhor, e escusa negar. Perguntem à Folha Nova, perguntem à Gazeta de Noticias, perguntem à Gazetinha, à Gazeta da Tarde, perguntem ao próprio Jornal do Commercio, e todos esses órgãos afirmarão o que avancei.

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