Por Aluísio Azevedo (1882)
E nestas circunstâncias bem se pode calcular o interesse próprio que a levou a socorrer Clorinda.
Todavia, estava bem longe de imaginar a verdadeira situação da pobre menina. Ao ver de perto a dura miséria que a cercava, sentiu-se deveras comovida.
A casa parecia abandonada; não se ouvia ali o menor rumor. Salas sem trastes, paredes nuas, armários vazios, cozinha fria; tudo lhe dava o melancólico aspecto de uma velha casa sem dono.
Os três subiram afinal e foram encontrar a velha Januária estendida no chão do mesmo quarto em que a deixara a filha adotiva.
Estava imóvel, com a cabeça pendida para o lado esquerdo e com os braços cruzados sobre o peito, apertando contra ele a caixinha das jóias. Descobria-se-lhe a vida somente por um esforço, quase imperceptível, que fazia o corpo para respirar.
Os três aproximaram-se dela, e a velha, ao sentir o médico segurar-lhe um dos pulsos, tentou gritar e apertou mais a caixinha contra o seio.
Clorinda contou as circunstâncias que precederam àquela crise.
— Compreendo! disse o facultativo, não resistiu à provação! Pobre criatura!...
E, depois de examiná-lo por algum tempo, declarou que só um tratamento muito sério a podia salvar.
Clorinda não respondeu, e as lágrimas correram-lhe dos olhos.
— E se fossem lá para minha casa?... lembrou a viúva com muito interesse.
— Iríamos incomodá-la, respondeu Clorinda no auge da aflição.
— Aqui é que ela não se poderá curar, observou o Dr. Trovão, se não vier alguém ao seu auxílio.
— Eu ficarei com ela... disse Clorinda.
— Mas V. Exa. não precisa menos de tratamento. Se não tomar cuidado não lhe dou muito tempo para cair de cama.
— Nesse caso aceito, pelo menos até que mãezinha se restabeleça, concordou afinal a menina, com o ar acanhado de quem se vê na dependência dos obséquios de um estranho.
— Pois a mudança se fará hoje mesmo, e o doutor irá visitá-la com regularidade.
O Dr. Trovão receitou, tomou nota do número da casa da viúva e saiu, prometendo mandar imediatamente alguém que se encarregasse de transferir para lá a doente e cuidar do mais que fosse necessário.
Nesse mesmo dia D. Januária e a filha ficaram aboletadas no pitoresco chalezinho da Tijuca em que morava Júlia.
Clorinda comunicou o ocorrido ao Dr. Roberto e pediu-lhe que aparecesse para ver a enferma. D. Januária só no dia seguinte voltou a si, mas ainda com muita febre e fraqueza de razão. Uma semana depois apareceu João Rosa; Clorinda o recebeu com frieza. Falaram vagamente sobre vários assuntos, mas, logo que a conversa se encaminhava para o casamento, ela a desviava como por instinto. João Rosa, porém, não desistia e continuava de pé firme no seu propósito.
Júlia, considerando o estado desvantajoso de Clorinda, achava aquela insistência extraordinária em um homem que não parecia talhado para os sacrifícios e para a dedicação.
O ar aventureiro de João Rosa, o seu olhar cobiçoso e móbil, a sua boca apertada e quase sem lábios, o seu todo furão, seco, inquieto, não podiam esconder um coração terno e generoso.
A viúva desconfiou dele, foi talvez a primeira que se atreveu a suspeitar das intenções de João Rosa. Até aí, exceção do Dr. Roberto, todos os mais censuravam a rapariga por não aceitar o novo partido que se lhe oferecia.
— Mas, que levará este homem a desejar com tanto interesse a mão de Clorinda?... pensava a viúva. Por que a ama?... não é possível; aquele tipo não ama senão o dinheiro! Será por capricho? Não! porque os entes tacanhos não têm caprichos!...
E Júlia, por mais tratos que desse ao espírito, não conseguia descobrir coisa alguma.
Uma vez, sem querer, ouviu na própria casa, o seguinte diálogo, travado entre ele e Clorinda:
— Posso então ter ao menos uma esperança? perguntava João Rosa.
— Mudemos de conversa... respondeu ela.
— Não! A senhora hoje vai dar-me uma resposta. Já esperei por muito tempo.
— Pois a resposta é que não. Não o aceito para marido!
— Mas reflita um pouco, D. Clorinda... Lembre-se da posição falsa em que se acha... Não seria melhor que, em vez de chegarem as coisas a este extremo, tivesse a senhora resolvido a casar comigo e assim evitado vir morar aqui nesta casa por obséquio?... Não lhe parece que eu lhe poderia proporcionar uma existência mais segura e mais definida?...
— Mas é que eu não quero casar com o senhor!
— E por quê? Por que me não ama?!
— Não é só isso. Tenho-lhe amizade, mas não me posso casar com o senhor.
— Mas por quê?...
— Porque já estou comprometida. Meu noivo desapareceu, mas enquanto não me constar a sua morte, só a ele pertenço.
— E se nunca lhe constar semelhante coisa?!
— Paciência!...
— Pois eu não desanimo! Esperarei! esperarei sempre! retorquiu João Rosa com firmeza.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.