Por Aluísio Azevedo (1884)
A excursão ao Vesúvio, como um passeio que fez à Torre d'el Greco, impressionou-a mediocremente. No Vesúvio não viu erupção de espécie alguma; não percebeu vestígios de salteadores. — A Calábria desacreditou-se para ela. Nada encontrou de tudo aquilo que reclamava a sua terrível sede de comoções
— Experimenta a tal Pompéia! aconselhou o marido, incomodado por vê-la contrariada. Pode ser que te dês bem... E lembrou também Herculanum, de cujo nome não se recordava.
— Qual Pompéia, nem qual histórias! respondeu a mulher furiosa contra os seus poetas e romancistas. Canalhas! Súcia de empulhadores!
E, muito indignada, abandonou Nápoles, para tomar a direção de Veneza, à qual sua imaginação insistia em agarrar-se como a um recurso extremo.
Mas a bela filha do Adriático, a pátria do amor e do arrepio, a sede da comoção e da poesia, a cidade dos palácios de abóbadas mouriscas a terra, enfim, das patrícias apaixonadas, também não correspondeu à expectativa de Filomena.
Lá estava a ponte triangular do Rialto; o cais dos Escravos; as cúpulas de S. Marcos; os indispensáveis pombos; as ramalheteiras, que vendem flores aos estrangeiros; os oficiosos cicerones; os gondoleiros, encapotados como monges, que passeiam tristemente por baixo das pontes; lá estava tudo isso de que constavam as notas de Filomena, mas, valha-me Deus! — nada a satisfazia, nada a saciava, nada correspondia ao que ela julgara encontrar, nada realizava o que anteviera nos seus sonhos cheios de impaciência e de sobressalto.
Passearam em carruagem de Burgano a Leco, sobre as margens do lago de Como; foram depois a Menaggio, na margem oposta, e daí partiram resolutamente para a calma Suíça, fartos de Itália, cujos nomes de grandes e pequenas cidades, aqueles mesmos que dantes arrebatavam Filomena e lhe punham no espírito uma nostalgia doce e melancólica, já nem ao menos tinham para ela a mesma sonoridade de então. Livurnia, Cività-Vechia, Chija, Bellinzona, Ischia, Gaeta, nada, nada possuía já o primitivo encanto!
E um grande vácuo abriu-se nas suas aspirações; um de seus sonhos acabava de esfacelar-se como uma nuvem dissolvida pelo vento. E Filomena, desde que se convenceu de que, se quisesse a comoção e a aventura, tinha de prepará-las por suas próprias mãos, caiu num estado sombrio de atonia e desânimo.
O Borges, sobressaltado com essas tristezas, procurava cercá-la de mil cuidados, fazia-se meigo, muito seu camarada, seu amigo, adivinhando-lhe as vontades, correndo ao encontro de seus caprichos.
— Que tens tu, meu anjo, minha vida? Fala! Conta-me tudo.
Ela, em vez de responder, atirava-se-lhe nos braços e escondia entre soluços o rosto no peito dele.
CAPÍTULO VII
O RAPTO
Mas, uma noite, achavam-se então em Sevilha — sultana do Guadalquivir — como lhe chamava Filomena, sempre fecunda nas suas paráfrases poéticas; Borges, familiarizado já com os gostos românticos da mulher, resolveu pôr de parte uns certos escrúpulos e assaltar-lhe o quarto pela janela.
— Era impossível que Filomena resistisse ao encanto de uma violência tão pitoresca!...
Moravam em Triana, num modesto e confortável hotelzinho. A caprichosa, segundo o louvável costume, exigira que o marido alugasse dois quartos bem separados, e não teve grande empenho em declarar-se casada; ao Borges, por outro lado, também não convinha dizer a verdade, receoso de que esta o tornasse ridículo aos olhos de todos, como havia já sucedido em várias partes.
O terno marido, depois de bem estudar o seu plano de ataque, tratou de realizá-lo. Vestiu-se como os do povo, arranjou uma escada e, logo que só ouviu em todo o quarteirão a voz longínqua dos serenos, meteu mãos à obra.
E, com certeza, teria obtido o melhor êxito, se alguém, que o vira tentando penetrar de um modo tão suspeito no hotel, não fosse denunciar o fato aos tais serenos, que sem demora acudiram armados de suas lanternas e de seus chusos.
Houve escândalo; reuniu gente, e o Borges escapou de ser catrafilado, graças à lógica de sua algibeira, que conseguiu provar ao honesto estalajadeiro a conveniência de arranjar-lhe em menos de dois minutos um esconderijo no próprio hotel.
Por esse tempo, Filomena, tendo chamado em vão pelo marido, e talvez até desconfiando ser ele o autor do malogrado assalto, exigia do oficial de ronda (estavam em épocas revolucionárias) que lhe deparasse um lugar decente, onde uma estrangeira honesta ficasse ao abrigo do primeiro malfeitor, que lhe quisesse entrar pela janela.
O oficial tinha família e pôs a sua casa à disposição da queixosa, até que o juiz designasse, com as devidas formalidades, o sítio onde ela devia ser depositada judicialmente.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.