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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E, aguilhoado pelos sentidos, perdia-se em cálculos infames, em degradantes suposições; tentando, embalde, adivinhar-lhe os pensamentos, penetrar-lhe nos escaninhos do coração e devassar-lhe todos os segredos do corpo.

— Oh! Como seria?...

E seu desejo vil começava a despi-la, peça por peça, até deixá-la completamente nua.

— Mas não! não havia possibilidade! contrapunha-lhe a razão. — Tudo aquilo era loucura, simples loucura! Hortênsia não podia ser mais séria, mais amiga do marido! Qual fora a palavra, o gesto, que lhe dera a ele o direito de pensar em semelhante coisa?... Sim! que fizera a pobre senhora para autorizá-lo a tanto?... Onde estava o fundamento daqueles sonhos, pelos quais queria trocar a sua liberdade, os seus prazeres, tudo, e ficar encurralado em uma casa comercial, com obrigação de entrar às tantas, comer às tantas e guardar todas as conveniências ao lado de uma gente impossível?!...Ora! que se deixasse de asneiras! Não fosse tolo!

Hortênsia Campos aparecia-lhe então como em verdade o era: carinhosa e altiva, afável para todos igualmente, sem dar a nenhum o direito de supor uma preferência. Amâncio já não a tinha descompostas defronte dos olhos mas respeitosamente restituída ao seu vestidinho de chita, à suas botinas de duraque, quase sem salto, e às tranças honestamente penteadas.

— Mudava-se! Que dúvida! Sim! Uma vez que Hortênsia nada mais era do que uma senhora virtuosa, que diabo ficava ele fazendo ali?...Não seria decerto pelos bonitos olhos do Campos!

* * *

As oito horas, quando entrou em casa tinha já resolvido não ficar ali nem mais um dia. — Era fazer as malas e bater quanto antes a bela plumagem!

Mas também, se por um lado não lhe convinha ficar em companhia do Campos: por outro, a idéia de se meter na república do Paiva não o seduzia absolutamente. Aquela miséria e aquela desordem lhe causavam repugnância. Queria liberdade, a boêmia, a pândega — sim senhor! tudo isso, porém, com um certo ar, com uma certa distinção aristocrática. Não admitia uma cama sem travesseiros, um almoço sem talheres e uma alcova sem espelhos. Desejava a bela crápula, — por Deus que desejava!mas não bebendo pela garrafa e dormindo pelo chão de águas - furtadas! — Que diabo! — não podia ser tão difícil conciliar as duas coisas!...

Pensando deste modo, subiu ao quarto. Sobre a cômoda estava uma carta que lhe era dirigida; abriu-a logo:

“Querido Amâncio.

Desculpe tratá-lo com esta liberdade; como, porém, já sou seu amigo, não encontro jeito de lhe falar doutro modo. Ontem, quando combinamos no Hotel dos Príncipes a sua visita para Domingo, não me passava pela cabeça que hoje era dia santo e fazíamos melhor em aproveitá-lo; por conseguinte, se o amigo não tem compromisso, venha passar a tarde conosco, que nos dará com isso grande prazer.

Minha família, depois que lhe falei a seu respeito, está impaciente para conhecê-lo e desde já fica à sua espera.”

Assinava “João Coqueiro” e havia o seguinte post-scriptum: “Se não puder vir, previna-mo por duas palavrinhas; mas venha. Resende n...”

Amâncio hesitou em se devia ir ou não. O Coqueiro ,com a sua figurinha de tísico, o seu rosto chupado e quase verde, os seus olhos pequenos e penetrantes, de uma mobilidade de olho de pássaro, com a sua boca fria, o seu nariz agudo, o seu todo seco egoísta, desenganado da vida, não era das coisa que, mais o atraíssem. No entanto, bem podia ser que ali estivesse o que ele procurava, — um cômodo limpo, confortável, um pouquinho de luxo, e plena liberdade. Talvez aceitasse o convite.

— Esta gente onde está? perguntou, indicando o andar de cima a um caixeiro que lhe apareceu no corredor, com a sua calça domingueira, cor de alecrim, o charuto ao canto da boca.

— Foram passear ao Jardim Botânico, respondeu aquele, descendo as escadas.

— Todos? Ainda interrogou Amâncio.

— Sim, disse o outro entre os dentes, sem voltar o rosto. E saiu. — Está resolvido!pensou o estudante. — Vou à casa do Coqueiro. Ao menos estarei entretido durante esse tempo!

E voltando ao quarto :

— Não! É que tudo ali em casa do Campos já lhe cheirava mal!.. Olhassem para o ar impertinente com que aquele galeguinho lhe havia falado!...Em tudo o mais era pelo mesmo teor. — Uma súcia d’ asnos!

Começou a vestir-se de mau humor, arremessando a roupa, atirando com as gavetas. O jarro vazio causou-lhe febre, sentiu venetas de arrojá-lo pela janela ;ao tomar uma toalha do cabide, porque ela se não desprendesse logo, deu-lhe tal empuxão que a fez em tiras.

— Um horror! Resmungava, a vestir-se furioso, sem saber de quê. — Um horror!

E, quando passou pela porta da rua, teve ímpetos de esbordoar o caixeiro, que nesse dia estava de plantão.

CAPÍTULO V

João Coqueiro era fluminense e fluminense da gema. Nascera na Rua do Parto em uma das casas de seus pais, quando estes eram ricos.

(continua...)

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