Por José de Alencar (1878)
Hermano não se lembrava mais do homem que fora; nem tinha consciência de outra vida, senão essa que lhe trouxera Amália. Quanto à moça, os seus primeiros terrores, a indignação que sentira, o segredo que surpreendera, tudo se dissipara como por encanto. Ignorava o passado. A viuvez de Hermano, as relações dele com a desconhecida; ela não sabia mais disso; não sabia senão que amava.
Como se havia operado esse milagre? Ninguém o poderia explicar, nem eles mesmos, que não tinham consciência da revolução profunda consumada em sua vida no espaço de alguns dias apenas.
Mais de três anos foram vizinhos, avistando-se freqüentemente, sem que se preocupassem um do outro. De repente algumas palavras de uma conversa, algumas notas de uma ária, decidiram de seu mútuo destino.
D. Felícia enchera-se de esperanças; e julgou-se dispensada do sacrifício da viagem à Europa, à qual só extremos de mãe a obrigariam. A prudente senhora sempre entendera que, de todas as mudanças de clima, a mais proveitosa para uma menina depois dos dezoito anos era essa que ela faz da casa paterna para o domicílio conjugal.
— Qual Vichy!... dizia aos médicos. Não há como água da pia.
Entretanto os dias corriam; e o acontecimento esperado não se realizava. Debalde a senhora chamava constantemente a conversa para o assunto da viagem, e insistia na proximidade da partida, lembrando as mágoas da separação.
Os dois apaixonados, absorvidos consigo, não a escutavam. Para eles não havia nem passado, nem futuro. A vida resumia-se no presente; e o presente era aquela íntima efusão em que se isolavam dos outros, em um canto da sala.
Uma vez, porém, D. Felícia interrompeu a confidência de todas as noites para interpelar diretamente a filha.
— Amália, teu pai amanhã vai escolher os camarotes. Não queres ir com ele?
— Tão cedo! observou o Borges. Ainda faltam dois meses.
— O Sr. Veiga quer prevenir-se com antecedência para obter os melhores lugares.
— Mamãe não vai? perguntou Amália.
— Eu não; só de falar em vapor já estou enjoada.
— Irei com papai. A que horas?
— Depois do almoço.
— Às dez horas, disse a moça enviando a Hermano em um olhar essa indicação.
Ele compreendeu.
— Então sempre se resolve a deixar o seu Rio de Janeiro?
— Mamãe vai.
— Mas a senhora podia ficar.
— Com quem? perguntou ela surpresa.
— Com seu marido.
Amália enrubesceu.
— Posso falar a seu pai?
A moça ergueu-se perturbada e aproximou-se da mãe para dizer-lhe ao ouvido:
— O Sr. Hermano pergunta se pode falar a papai?
D. Felícia voltou-se para o seu hóspede, e disse-lhe com um sorriso:
— Pode; ele está no gabinete.
Capítulo 12
Guiado pelo aceno de D. Felícia, Hermano dirigira-se ao gabinete do Sr. Veiga, que tinha por costume fazer diariamente a sua caixa particular antes do chá.
Ninguém ouvira na sala o breve diálogo dos dois namorados; e menos a pergunta que Amália transmitira à mãe, calando aliás a verdadeira intenção que Hermano lhe havia dado. Mas as pessoas presentes suspeitavam que se tratava do pedido formal de um casamento, que todas já previam.
Quanto a D. Felícia, tinha certeza do fato. A confusão da filha e o alvoroço que se traía na voz e nas palpitações do seio revelavam bem o sentido da pergunta de Hermano e a significação do seu ato.
Amália, para esquivar-se à curiosidade geral que lhe interrogava a atitude e a expressão da fisionomia, fora sentar-se ao piano; e tocava com um brio nervoso, para dissimular na agitação do exercício musical e na excitação da fadiga os sobressaltos involuntários bem como os rubores que lhe abrasavam as faces e o colo.
Pelo seu gosto se teria retirado da sala; mas Hermano devia ressentir-se dessa ausência, e ela mesma não podia privar-se da sua presença pelo resto da noite. Sair para voltar depois da decisão era expor-se ainda mais ao reparo.
Durou meia hora a expectativa
Ouviu-se abrir a porta do gabinete e todos os olhos volveram-se para o corredor, com exceção dos de Amália que se abaixaram a pretexto de decifrar uma frase.
Ela não viu nada, nem ali, nem no papel, nem em torno; tinha uma névoa nos olhos. Ouviu, porém, uma voz comovida pronunciar seu nome e sentiu que lhe apertavam a mão.
Quando recobrou-se desse soçobro e ergueu-se correndo a sala com o olhar, Hermano partia.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.