Por José de Alencar (1875)
Era incapaz de apropriar-se do alheio, ou de praticar um abuso de confiança; mas professava a moral fácil e cômoda, tão cultivada atualmente em nossa sociedade.
Segundo essa doutrina, tudo é permitido em matéria de amor; e o interesse próprio tem plena liberdade, desde que se transija com a lei e evite o escândalo.
No dia seguinte à visita de Lemos, logo pela manhã, D. Camila procurou um pretexto para ir à alcova do filho.
Venho falar-te de um negócio de família, Fernandinho. Há um moço, aqui mesmo desta rua, que tem paixão pela Nicota. Está começando a vida; mas já é dono de uma lojinha. Não quis decidir nada antes de tua chegada.
D. Camila contou então ao filho os pormenores do inocente namoro; Fernando concordou com prazer no casamento.
- Já era tempo, disse a boa senhora suspirando. Estava com tanto medo que a Nicota também fosse ficando para o canto, como a minha pobre Mariquinhas!
- Coitada! Mas eu ainda tenho esperança de arranjar-lhe um bom partido, minha mãe.
- Deus te ouça. Ah! Ia-me esquecendo. Então há de ser preciso tirar-lhe algum dinheiro da Caixa Econômica por conta do que ela tem para cuidar do enxoval.
- Já... O moço ainda não a pediu.
- Só espera licença de Nicota, e ela não quis dar, sem primeiro saber se era de teu gosto e meu. Hoje mesmo...
- Está bem. Logo que eu possa, irei tirar o dinheiro: mas se precisa já de algum, tenho aqui.
- Não; melhor é comprar tudo de uma vez.
Fernando saiu contrariado. Com a vida que tinha, avultava sua despesa. O dinheiro que recebia mensalmente gastava-o com o hotel, o teatro, a galanteria, o jogo, as gorjetas, e mil outras verbas próprias de rapaz que luxa. No fim do ano, quando chegava a ocasião de saldar a conta do alfaiate, sapateiro, perfumista e da cocheira, não havia sobras.
Recorreu ao dinheiro da Caixa Econômica e não teve escrúpulo de o fazer, desde que pontualmente continuou a entregar à mãe a mesada de Cr$ 150,00, esperando uma aragem da fortuna para restituir ao pecúlio, o que desfalcara. Mas em vez de restituição, foi entrando por ele de modo que muito havia se esgotara.
Onde pois ia ele buscar o dinheiro que a mãe lhe pedira para o enxoval; e mais tarde o resto do quinhão da Nicota?
Assinou Fernando o ponto na repartição, e como de costume, saiu para almoçar; depois do que dirigiu-se à casa do correspondente a quem ele incumbira de na sua ausência pagar a mensalidade à D. Camila e enviar-lhe algumas encomendas.
Contava com um saldo das remessas que havia feito de Pernambuco, e dos atrasados que deixara a cobrar. Esbarrou-se porém com um alcance superior a dois mil cruzeiros; ao qual o correspondente começava a contar um juro de 12%. Seixas compreendeu a eloqüência dessa taxa que significava uma intimação de imediato pagamento.
Ao escurecer, tomando à casa para trajar-se, pois tinha de ir a uma partida, achou três cartas, que haviam trazido em sua ausência.
Uma era do Amaral. Enchia duas laudas; dizia muito, mas nada concluía; verdadeiro logogrifo epistolar, cuja decifração o autor deixava à perspicácia do Seixas. Em suma o pai de Adelaide escrevera uma folha de papel para preparar o pretendente a um próximo arrependimento da promessa.
Quem estivesse traquejado no trato do Lemos, conheceria naquela prosa o seu estilo, pintalegrete, como o seu físico.
As duas outras cartas eram simplesmente umas contas avulsas, mas não insignificantes, que Seixas deixara ao partir para Pernambuco, e de que já não tinha a menos idéia. Elas se faziam lembrar com laconismo brutal desta verba:
- Importância de sua conta entregue o ano passado – Cr$ etc.
Fernando amassou as três missivas em uma pelota que arremessou ao canto. A ruptura do ajuste de casamento, que em outra circunstância porventura o contentaria com a restituição da liberdade e responderia a um oculto desejo, naquele instante o acabrunhou. Viu nesse fato a prova esmagadora da ruína que ia tragá-lo e de que eram documentos as contas não pagas e as dívidas acumuladas.
Na reunião, onde foi passar a noite, esperava-o a última decepção.
Aceitando a comissão em Pernambuco, Seixas alcançara a promessa de na volta continuar com a sinecura da recopilação das leis; mas nessa manhã apresentando-se na secretaria surgiram certas dúvidas. Confiou em seus protetores.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.