Por Camilo Castelo Branco (1882)
Acercou-se do outro, com os braços pendentes, os pés juntos, um pouco inclinado, e falou-lhe baixo.
– Sim – respondeu o monarca.
– Está servido, Senhor Barão – comunicou o secretário, e foi registar no livro das mercês, proferindo em voz alta: Sua Majestade há por bem nomear sargento-mor das Lamelas Zeferino Ferreira, em atenção aos serviços de seu pai, o coronel Gaspar Ferreira.
– Vá agradecer a el-rei, Sr. Sargento-Mor – disse o barão de Bouro ao pedreiro. Zeferino foi ajoelhar, querendo beijar as botas ao homem.
– Levante-se, amigo – disse o príncipe. – Aqui tem a resposta da carta do meu amigo Cerveira Lobo. É necessário que ninguém veja este sobrescrito. Tome sentido, que ninguém saiba a quem esta carta é dirigida. Vá com Deus, e estimarei vê-lo aqui, Sr. Sargento-Mor, com outra carta do meu honrado amigo, enquanto não posso abraçá-lo pessoalmente. Adeus
A corte saiu em recuanços, dando-se mútuos encontrões para não voltarem as costas à majestade.
A criada apareceu então esfandegada para pôr a mesa, que estava a ceia pronta, e que o frango com arroz não esperava – que era preciso comê-lo logo que estava feito. Ficou para cear o Nunes. Ceava sempre com el-rei e com o abade.
O Zeferino, que tinha ali a égua e conhecia o caminho, não quis ir pernoitar a Santa Marta de Bouro. Havia luar e saía um rancho de romeiros para o Bom Jesus do Monte. Partiu em direcção a Braga, e ao outro dia de tarde apeava no sonoro pátio da casa de Quadros, por onde entrara com a égua em grande estropeada, com a cara escandecida numa congestão de júbilo.
O Cerveira estava a dormir a sesta.
– Apanhou-a hoje daquela casta! Como um cacho! – informou um caseiro.– Mandou aparelhar a poldra castanha do Sr. Egas, com os coldres das pistolas, escanchou-se na sela, com a espada desembainhada e desatou a galope por debaixo das ramadas a dar gritos: Eu estava a ver quando o levava a breca de encontro a um esteio de pedra, que malhava abaixo da burra como um dez!... Depois o Sr. Egas e mais o Sr. Heitor lá o apearam como puderam, e foram-no pôr a dormir. Arre diabo! lá que um homem uma vez por outra apanhe um pilão, vá; mas embebedar-se todos os dias, é muito feio! E depois ninguém se entende com ele. Medra com o suor dos pobres. Um fona. Que vá para o diabo que o carregue. Tanto se me dá como se me deu. Se me mandar embora, boas noites. Não é capaz de perdoar um alqueire de milho a um caseiro! Tem vinte mil cruzados de renda, não gasta nem cinco, andam os filhos a vender o mato e os pinheiros, uma vergonha, porque ele, a dois homens gastadores, que têm amigas, uma a cada canto, dá cada mês vinte pintos para os dois! O homem deve ter muita soma de peças enterradas! Qualquer dia cai-lhe aí em casa o José Pequeno da Lixa que lhe põe a faca ao peito até ele pôr ali o dinheiro à vista. Diz que quer comprar mais terras, e aqui há dias ofereceu seis contos pela quinta do Lopes de Requião. Veja você. Tem seis contos ao canto da gaveta, e ainda não deu cinco réis, que são cinco réis, à filha, à D. Teresinha, que casou com o estudante das Quintãs. Anda por lá de socas, sem meias, a fazer o serviço da cozinha. E estão aí as outras duas, que parecem umas fadistas, nas romarias, e, quando Deus quer, topa a gente de noite por esses quinchosos esses marotos dos engenheiros e empreiteiros a saltarem paredes para se irem meter com elas na casa do palheiro. Uma vergonha, mestre Zeferino, a vergonha das vergonhas! Eu sou um pobre; mas raios me parta, que se eu tivesse assim umas filhas... Olhe... (batia com o pé em cheio na relva) esmagava-as como quem esborracha uma toupeira. Deus nos livre de bêbedos! Deus nos livre de bêbedos! Você bem sabe o que isso é, mestre Zeferino, que pelos modos lá por casa não tem pouco que aturar a seu pai, que também as agarra muito profeitas! Olhe você como ele se tolheu quando foi, dia de Natal, dar fogo aos de Santo Tirso! Aquilo só com meio almude no bucho! – Não é tanto assim atalhou o sargento-mor de Lamelas.– Não lhe digo que meu pai não tivesse algum graeiro na asa; mas o que ele fez não era você capaz de o fazer, tio Manuel.
– Ah! isso não, bem o pode dizer, mestre Zeferino. Nunca me emborrachei, aqui onde me vê com cinquenta anos já feitos; mas, se algum dia me emborrachar, que ninguém está livre disso, prego-me a dormir e não vou atirarme ao Ave em Dezembro; àgora vou, se Deus quiser. Vai-se pôr o alma do Diabo a dar vivas ao D. Miguel! Qual Migue! nem qual carapuça! Se D. Miguel cá vier há-de fazer tanto caso de seu pai como eu daquela bosta que ali está. O que ele devia era tratar de conservar os terrões, e fazer como você, que se pôs a trabalhar e se fez pedreiro quando viu que os malhados lhe tomaram conta das terras. E daí? Você hoje tem o seu par de mel cruzados, ganhados com o suor do seu rosto, e até já me disseram que você dava quinze centos ao de Prazins para lhe casar com a rapariga. É assim ou não é?
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.