Por Aluísio Azevedo (1884)
“Em que diabo de trapalhada me meti!....” - pensava eu pelo caminho. - “Afinal a questão caiu já no domínio público; de dia para dia ela toma um caráter mais sério, e não quero pensar em quais serão para mim as conseqüências de tudo isto!... Ah! Margarida, Margarida, mal sabes tu o martírio que me tens feito passar! ...” Só às nove da noite chegamos a casa.
Minha sogra arfava de impaciência ao meu lado, enquanto eu abria a porta.
- Quem é? - perguntou uma voz de dentro.
- Ai! o meu rico homem! - exclamou a velha, levando aos olhos uma das pontas do xale.E, apesar da escuridão, enfiou de carreira pelo corredor.
XIV
Tive de assistir a uma cena de ternura: Dona Leonarda, mal avistou meu hóspede, abriu em três pulos uma carreira que foi acabar nos braços dele.
Apertou-o, beijou-lhe os lábios, chorou-lhe sobre o peito a sua velha e crônica saudade.
Castro Malta deixava-se amimar, sem uma palavra de oposição ou de ternura.
- Tu me amas? - perguntou-lhe ela com a voz sumida e estrangulada de comoção. - Tu me amas, Castro?
- Pois não! - respondia ele, já impaciente.
E, voltando-se para mim, enquanto a velha o estreitava nos braços:
- Eis a vida, meu amigo! Eis a vida! Pense e reflita sobre este caso e diga-me depois a razão, por que sou tão estremecido por esta mulher.
- Castro! - repreendeu a velha, abaixando os olhos, muito séria.
- Mas se é assim... - ia continuar o ressuscitado, quando eu, vendo que a cena ameaçava prolongar-se por muito tempo, resolvi cortá-la, dizendo ao amoroso casal que estava defronte dos meus olhos:
- Bem, jovens pombos apaixonados, agora que já se abraçaram à vontade, agora que, segundo julgo, já não há restos de saudade viva dentro de nenhum de vocês dous, vamos tratar do que a todos nos interessa.
- A mim nada interessa mais do que isto! - afirmou minha sogra.
- E a mim nada interessa absolutamente! - acrescentou o Castro, deixando-se cair em uma cadeira. - Dou-lhes a minha palavra de honra em como estou caindo de fome. Juro que um pedaço de carne assada não me faria agora mal de espécie alguma, mas...
- Mas... - ajudei eu, verdadeiramente intrigado.
- Mas o quê, Sr. Castro?
- Mas... É verdade! Mas o quê?... Para lhes falar com franqueza, já não me lembro do que dizia...
- Lembro-me eu - observei, reunindo na memória os fragmentos esparsos da conversa. - Lembro-me eu... O senhor dizia que...
- Nada! Não! - atalhou Castro. - Não me lembre nada! Deixemo-nos disso! Para que diabo havemos de lembrarmo-nos de coisas que não nos interessam, isto é, que não interessam ao senhor, porque a mim nada, absolutamente nada, me interessa! ...
- Isso já o senhor repetiu mais de vinte vezes!
O maluco ia dar-me réplica, mas teve de sustê-la com a chegada de alguém, que acabava de entrar.
Todos nós três voltamo-nos para o novo personagem.
Era o Sr. Quintino, compadre de minha sogra.
- Ah! É o senhor, compadrinho? — gritou esta. - Que boa surpresa!
- É verdade - respondeu o redator dO Paiz, dirigindo-se mais ao gesto de curiosidade que eu fazia do que mesmo às palavras de Dona Leonarda. - É verdade! Sou eu, que, descobrindo o grande equivoco em que navegam os senhores todos, apressei-me a vir desvendá-lo!
- Como?! - pinchou a velha. - Como, seu compadre?
- Quer dizer - continuou o famoso jornalista. - Quer dizer que a senhora e este senhor seu genro, se me não engano, têm sido vítimas de uma enorme trapalhada.
- Não compreendo! - afiancei.
- Nem eu! - reforçou a velha.
- Explicar-me-ei! - tornou o Sr. Quintino. - Explicar-me-ei!
- Pois então veja se anda com isso! - disse Dona Leonarda, dominada por grande aflição. - Veja se anda com isso, porque dou-lhe a minha palavra de honra que já estou farta de toda esta porcariada de Castros Mattas e Maltas, e já não me sinto disposta a aturar mais semelhante mexericada! Arre! Arre! Que até fede! Até fede esta questão!
- Bom! bom! - cortou o jornalista. - Não vale a pena arreliar-se por tão pouco, minha senhora. A minha visita a esta casa não teve por fim dar incômodos, mas pura e simplesmente esclarecer o engano que havia. - Pois esclareça por uma vez! - bradou a velha.
- O Castro Malta de que fala a senhora - explicou Quintino -, assim como o Castro de que fala o senhor seu genro, nada têm de comum com o Castro Malta de que fala o jornal de que sou redator-em-chefe!
- Como assim?
- Quer dizer que nenhum desses dous Castros é o meu, nenhum desses é aquele que O
Paiz procurou descobrir! Pelos documentos, que me acaba de fornecer a Santa Casa de
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.