Por Aluísio Azevedo (1882)
Clorinda recuou, tomada de um grande terror. O vulto esquelético da mãe fazia-lhe medo naquele momento. A velha afastou-se, a olhar sempre desconfiadamente para os lados, e foi meter-se no canto mais sombrio da casa, abraçada à caixinha que levava consigo.
Clorinda não se animou a segui-la; a idéia de que a velha enlouquecera e fosse capaz de estrangulá-la no mesmo instante, atravessou-lhe o espírito e agitoulhe o corpo inteiro num estremecimento de medo. Quis chamar por alguém,. quis pedir socorro, mas nada lhe ocorria nesse momento; afinal, ouvindo no interior da casa os passos trôpegos de Januária, ganhou o corredor e atirou-se para a rua.
Já não era a mesma rapariga. Principiava a emagrecer e descorar. O trabalho exagerado e as noites de fadiga queimaram-lhe os olhos, ainda pouco antes tão transparentes; as faces secaram com o mau trato; a boca resfriou com a ausência do riso, que era a sua alma; e o rosto despiu-se daquela frescura virginal, como a flor sem sol perde o perfume e deixa pender tristemente seu cálice emurchecido.
Ela parou no meio da rua, atônita.
Era a primeira vez que se achava assim, em trajos de casa, às vistas brutais dos vizinhos e dos transeuntes.
Mas o que lhe competia fazer?! Para onde devia ir?! Ah!
Teve uma idéia. Procurar o Dr. Roberto, contar-lhe o que se passara e pedirlhe socorro.
Mas o Dr. Roberto morava no Rio Comprido, não sabia ela em que altura, eram mais de seis da tarde, faltava-lhe dinheiro para tomar um carro, e D. Januária precisava de cuidados imediatos.
E, nesta conjuntura, aguilhoada pelo pudor e pelo medo, encostou-se à parede da casa, e escondeu o rosto para que não vissem as suas lágrimas.
Neste estado sentiu que alguém lhe tocara no ombro, voltou-se rapidamente, e deu, face a face, com Júlia Guterres.
— Ah! disse a pobre menina.
— A senhora não é a noiva de Gregório? perguntou a outra.
— Sim, sou eu! Não me estranhe ver aqui! Mãezinha creio que enlouqueceu!
Tenho medo. Veja como tremo!
— Como está mudada!... Mas o que tenciona fazer a senhora?
— Não sei! Não conheço as ruas, não conheço ninguém! Tenho medo de
voltar. Se visse como ela está!...
— Sua mãe?
— Sim; está furiosa! Não sei o que faça!
— Quer ir comigo?
— Não tenho ânimo de abandonar mãezinha!
— Vamos buscar um médico? — Pois sim.
E a viúva chamou o primeiro carro que atravessou a rua e meteu-se dentro dele com Clorinda.
Mas logo depois de dobrar a esquina, Júlia fez parar o carro e gritou para aquele rapaz louro que vimos conversar em uma roda no café em que tocava a Menina do Bandolim:
— Dr. Trovão! Dr. Trovão! tenha a bondade!...
E depois de falar-lhe em voz baixa, seguiram os três para a casa de D. Januária.
Anoitecia.
CAPÍTULO VIII
AQUI ANDA COISA!
Não trocaram uma palavra durante a viagem. Clorinda, a um canto da carruagem) resfolegava dos sobressaltos que sofrera essa tarde; o Dr. Trovão meditava sobre o que lhe dissera a viúva; e esta, concentrada e triste, perdia-se a contemplar silenciosamente o rosto desfeito e sombroso da outra.
Não era somente o desejo de fazer bem a Clorinda o que a levara a oferecer-lhe serviços com tanta solicitude; havia nisso também uma parte de interesse próprio: a viúva precisava ouvir falar de Gregório.
O leitor, se algum dia se deixou absorver por um amor sem limites, e se, depois de haver resignado no objeto dessa paixão todos os condutos da felicidade e da paz, se viu constrangido a consentir que ele fugisse e que o deixasse, só, a braços com o desejo, que consome, e a braços com a saudade, que alimenta, deve ter notado que a essa dolorosa ruptura lhe sobreveio ao coração um desejar constante de ver e ouvir tudo aquilo que lhe recordasse o ente fugitivo e saudoso.
Nesse estado passamos a descobrir grande interesse naquilo que há pouco nos era alheio e indiferente. Parece que o coração, não podendo possuir inteiro o objeto amado, quer reconstruí-lo pelos fragmentos do seu ser espalhados pela natureza. E assim vamos apanhando, aqui e ali, tudo que lhe diz respeito, tudo o que o recorde, tudo o que revele um sinal da sua passagem. As palavras de alguém que o conhece e que teve ocasião de lhe falar, dão-nos um prazer extraordinário. A simples presença de alguma pessoa que nos lembre a mulher amada, faz-nos pulsar com mais força o coração. A cadeira em que ela se assentava quando estávamos juntos, o espelho em que se mirava, endireitando os cabelos antes de partir, tudo isso nos fala do nosso amor e da nossa saudade, tudo isso nos transporta para as épocas felizes em que a possuíamos.
Júlia, com respeito a Gregório, estava justamente nesse caso. Desde que ele se ausentara, a desditosa viúva principiou a sentir-se atraída para tudo aquilo que lhe recordava o amante. Gostava de encontrar-se com o Dr. Roberto, procurava relacionar-se com alguns outros amigos de Gregório.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.