Por Aluísio Azevedo (1884)
E só acalmou um pouco a sua indignação, lembrando-se de que D. Juan, de Byron, enjoara também na primeira viagem que empreendeu. Todavia, em Lisboa, foram ocupar aposentos separados no Hotel de Bragança.
Apenas se demorariam o tempo necessário para tratar do título e seguiriam logo caminho de Espanha, porque Filomena declarou que aquela cidade lhe fazia mal aos nervos.
Todo o seu ideal era a Itália; sonhava-a através das descrições que lhe depararam centenas de romances. Queria Nápoles, com o clássico Vesúvio em plena erupção, o seu golfo lendário, o seu famoso céu azul, estrelado de pombos.
Exigia Veneza. Veneza com todos os seus acessórios pitorescos — as suas serenatas em gôndola, o seu palácio dos Doges, os seus romances debaixo de velhas e melancólicas abóbadas, consagradas pelos séculos. Reclamava excursões ao Lido, às ilhas decantadas da Laguna, a S. Lázaro dos Armênios, a Murano, a Torcelo. Queria saturar-se bem da "filha gentil do Adriático", mergulhar nas sombras azuis de seus canais, onde rebrilham de espaço a espaço as competentes lanternas dos gondoleiros; não morreria sem passar algumas horas de concentração mística e deliciosa sob a melancólica ponte dos Suspiros. — Oh! a ponte dos Suspiros!
Depois, Gênova, "cidade de mármore!", com a sua acumulação de palácios célebres, seus jardins silenciosos, suas colinas fortificadas! — Oh! a Itália, a Itália era então toda a sua ambição, todo o seu viver!
E deixaram-se os dois seguir o itinerário comum das viagens à Europa. Atravessaram a Espanha, a ruidosa França, percorreram a Suíça, "a livre Helvécia", como poeticamente a classificou Filomena, e, afinal, depois de uma semana de Mônaco, onde ela teve a fantasia de ver o marido perder dinheiro ao jogo, acharamse em caminho de Nice, da qual, mediante nove horas de mar, passaram-se a Gênova.
Chegaram às oito da manhã, quando um sol esplêndido punha em relevo as magnificências da cidade de mármore. Filomena, porém, estava sequiosa de Nápoles e, como seu vaporzinho seguia para aí, mal deu um passeio em terra, tornou a embarcar com o esposo.
— Oh! Nápoles! Nápoles, dizia ela, entusiasmada, ao chegar à famosa cidade. Como desejava eu viver e morrer sob o teu sol dourado, passando os dias e as noites a contemplar o teu céu azul, o teu golfo da cor do teu céu!... E ter perto de mim, ao alcance de meus olhos, Capri, Ischia e o Vesúvio, e essa extensa costa, que vai de Portici a Castellamare e aos belos penhascos de Sorrento! Ó Nápoles!
O Borges escutava essas e outras declamações com um profundo silencio de respeito. — Sim senhor! Não fazia a mulher tão entendida em geografia!... pensava ele, ensoberbecendo-se.
Não obstante, a romântica senhora sofreu uma triste decepção ao saltar na desejada cidade. Não era o seu Nápoles que tinha defronte dos olhos; não o reconhecia; faltava-lhe fosse o que fosse — um certo pitoresco, um certo encanto, que ela, por mais que procurasse, não encontrava ali.
— Não! decididamente não era aquele o Nápoles de seus sonhos! O que ela via defronte de si era uma população agitada e desordeira, que a acotovelava grosseiramente, obrigando-a a segurar-se ao braço do marido, o qual, por mais de uma vez, esteve a cair com os encontrões que recebia de todos os lados.
— Safa! gritou o Borges, tonto. — Assim nem a praia do Peixe!
Sobre o cais e nas longas ruas agitadas, que vão a Chiaja, a Santa Luzia, à rua de Toledo, ao Forte de Sant’Elmo — o mesmo formigar, o mesmo burburinho impertinente e grosseiro.
E que confusão de pescadores, camponeses, frades, mercadores, garotos nus e lazarones de todos os feitios e de todas as cores.
— Isto parece uma cidade de doidos! observou Filomena ao marido — isto nunca foi Nápoles.
E aquela multidão irrequieta parecia justamente um bando enorme de doidos, que iam e vinham em vertigens, empurrando-se uns aos outros, metendo-se pelas pernas dos estrangeiros, invadindo-lhes a bolsa e as algibeiras com olhares de ganância, e, às vezes, com os dedos. Vendedores d'água, de frutas e de peixe, passavam a gritar como perdidos; burros carregados de legumes seguiam a trote, chocalhando guizos barulhentos; transeuntes de todos os matizes sociais, conversavam e gesticulavam agitadamente. E carruagens a galope cortavam as ruas, em várias direções, num estardalhaço febril de matracas, ferragens e campainhas. E tudo, até as casas, as árvores e as pedras da rua, pareciam gritar, mover-se, espolinhar-se num frenesi estrepitoso, sem tréguas. Filomena declarou que estava roubada!
— Qual! Pois aquilo era lá um Nápoles! Impossível! Bem longe estava de ser o Nápoles que ela queria — o seu rico Nápoles! — Aquele era um Nápoles de segunda mão! Um Nápoles pulha! Antes não tivesse lá ido! Mil vezes antes!
Que lhe mostrassem as belas cenas napolitanas, que ela vira em pequena nas litografias coloridas! Que lhe apontassem os bem conhecidos e muito pitorescos pescadores napolitanos, com as suas Calezoni, a perna nua, a faixa e o gorro vermelho, e o amuleto ao pescoço.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.