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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Era quase sempre pelo intervalo das aulas, ao meio-dia, quando o calor quebrava o corpo e punha nos sentidos uma pasmaceira voluptuosa.

Em casa do velho Vasconcelos havia, segundo o costume da província, grande número de criadas; só no “quarto da goma”, como lá se diz, reuniam-se quatro ou cinco. Umas costuravam; outras faziam renda, assentadas no chão, defronte da almofadas de bilros; outras, vergadas sobre a “tábua de engomar”, passavam roupa a ferro.

Amâncio ,quando criança, gostava de se meter com elas, participar de suas conversas picadas de brejeirice, e deixar correr o tempo, deitado sobre saias, amolentando-se ao calor penetrante das raparigas, a ouvir, num êxtase mofino, o que elas entre si cochichavam com risadinhas estaladas à socapa. Por outro lado, as mulatas folgavam em tê-lo perto de si, achavam-no vivo e atilado, provocavam-lhe ditos de graça, mexiam com ele, faziam-lhe perguntas maliciosas, só para “ ver o que o demônio do menino respondia” .E, logo que Amâncio dava a réplica, piscando os olhos e mostrando a ponta da língua, caíam todas num ataque de riso , a olharem umas para as outras com intenção.

De resto, ninguém melhor do que ele para subtrair da despensa um punhado de açúcar ou de farinha, sem que Ângela desse por isso.

— O demoninho era levado!

E assim se foi tornando mulherengo, fraldeiro, amigo de saias.

A mãe, quando ouvia da varanda as risadas da criadagem, gritava jogo pelo filho.

— Já vou mamãe! respondia Amâncio.

Lá estava o diabrete do menino às voltas com as raparigas no quarto da goma! Oh! que birra tinha ela disso!...

Mas Amâncio não se corrigia. É que ali ao menos não chegaria o pai.

As vezes ,quando ia passear à casa de alguma família conhecida, arranjavase com as moças, gostava de acompanha-las por toda parte, fazendo-se muito dócil e amigo de servir. Como era ainda perfeitamente criança e bonitinho, elas lhe faziam festa e davam-lhe doces, figurinos de papel recortado e caixinhas vazias. Algumas lhe perguntavam brincando se ele as queria para mulher, se queria “ser seu noivo”. Amâncio respondia que sim com um arrepio. E daí a pouco ficavam as moças muito surpreendidas quando o demônio do menino lhes saltava ao colo e principiava a beijar-lhes sofregamente o pescoço e os cabelos ou a meter-lhes a língua pelos ouvidos.

— Credo! disse uma delas em situação idêntica..— Que menino! Vá para longe com as suas brincadeiras.!

Outras, porém, lhe achavam muita graça e eram as primeira s a puxar por ele.

De todos os brinquedos o que Amâncio mais estimava era o de “fazer casa”. A casa fazia-se sempre debaixo de uma mesa, com um lençol em volta, figurando as paredes. Uma de suas primas, filha do protetor de Campos, ou alguma menina que estivesse passando o dia com ele, representava de mulher; Amâncio de marido. A menina ficava debaixo da mesa, enquanto ele andava por fora, “a ganhar a vida ” até que se recolhia também a casa, levando compras e preparos para o almoço. Amarravam um lenço em duas pernas da mesa, fingindo rede, e aí metiam uma boneca, que era o filho.

Gostava infinitamente dessa brincadeira. Mas um belo dia veio abaixo o lençol que servia de parede, e desde então Ângela não consentiu que o filho se divertisse a fazer casa.

Muitos anos depois, aos quinze anos, notou-se incomodado por um padecimento estranho. Não disse nada à família e procurou um homem que havia na província com grande habilidade para curar moléstias, viessem elas até do mauolhado e do feitiço.

Santo homem! O mal do nosso estudante desapareceu como por milagre; o que, aliás, não impediu que tivesse daí a pouco de voltar à cama, debaixo de um novo e mais formidável carregamento que o ia varrendo ao cemitério. Foram esses três anos de sezões a que se referia, quando pela primeira vez falou ao Campos.

E Amâncio ,quanto mais rememorava tudo isso, quanto mais remexia no cinzeiro do passado, tanto mais impacientes lhe rosnavam os sentidos e tanto mais desabrida lhe vinha a necessidade de gozar, de viver em liberdade, de recuperar o tempo que levou sopeado e preso.

— Enfim! concluiu ele, erguendo-se distraído e abandonando o café — a casa do Campos não me convém! não me convém de forma alguma!

Mas a idéia de Hortênsia, que, para se apresentar, só esperava o termo daquelas considerações, invadiu-lhe o espírito e foi a pouco e pouco se estendendo e se esticando por todo ele, até ocupá-lo inteiramente com a sua imagem branca e palpitante, como uma bela mulher que desperta e, entre voluptuosos espreguiçamentos , alonga pela cama os seus membros entorpecidos de sono. E ele, quando deu por si, estava a fazer conjeturas sobre o amor de Hortênsia :

— Seria ardente ou calmo? Meigo ou arrebatado? Que atitude tomaria a bela mulher nos momentos supremos de ventura? Quais seriam as suas palavras, as frases do seu delírio?...

(continua...)

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