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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Deixando o amigo, lembrou-se o doutor de fazer à noite uma visita à família Veiga; e no primeiro ensejo referiu a Amália todas as circunstâncias do que ele chamava um triunfo. 

 

— Um triunfo artístico bem entendido, acrescentou sorrindo. 

 

— Os outros não são para mim, observou Amália em um tom de modéstia desdenhosa, que tornava ambígua sua frase. 

 

A moça conteve e dissimulou a alegria produzida pela confidência do doutor. Agora sabia que Hermano a tinha ouvido e que sua voz atraía aquele homem indiferente ao mundo. Esta certeza encheu-a de confiança 

 

Desde esse dia não cantou mais a Lucia. Às vezes ensaiava uns prelúdios, como quem se preparasse, e de chofre passava a outra peça, que executava primorosamente. 

 

Compreende-se bem o que devia ser Amália nesses dias, convencida como estava de que o seu encanto, o seu condão, estava na voz. Todos os esplendores de sua formosura, todas as seduções de sua pessoa, toda sua graça e gentileza, ela os transportou para a música e idealizou em arpejos e melodias. 

Quem já lhe tivesse admirado a beleza a reconheceria nesse canto inspirado que era como uma transfusão de sua radiante imagem. Seus lábios sorriam num trinado, com a mesma garridice com que desabrochavam a sua rubra flor. 

 

A moça já não duvidara de seu império. Ela sentia em torno de si, a envolvê-la incessante, a admiração de Hermano. A cada momento via ou adivinhava na espessura das árvores, na penumbra de uma janela, o olhar que a buscava com ansiedade, e a seguia infatigável. 

 

Entretanto mostrava-se despercebida dessa contemplação. Se aparecia à varanda ou passeava no jardim, não dava o menor sinal de ocupar-se com a casa vizinha que antes a absorvia tão completamente. Saía agora mais vezes para ter o gosto de ver-se acompanhada de longe e respeitosamente; ou para tornar mais desejada a sua presença. 

 

Amália não tinha cultivado a arte de fazer-se amar, que se chama faceirice; mas parece que é esse um dom natural da mulher. São as asas da borboleta, que nascem na estação própria, quando é tempo de voar. 

 

As partidas do Sr. Veiga tinham continuado; menos brilhantes do que outrora, porque Amália já não as animava com sua alegria e espírito; mas sempre concorridas. D Felícia insista nessas recepções, com a esperança de distrair a filha. 

 

Uma noite, Amália, que mostrava certa volubilidade nervosa, dirigia a miúdo os olhos para a porta, como se esperasse alguém. Eram oito horas. Henrique Teixeira entrou, acompanhado por um cavalheiro alto e elegante. 

 

A moça estremeceu reconhecendo Hermano; entretanto tinha um pressentimento, mais do que isso, a certeza dessa visita. Ninguém lhe dissera coisa alguma; mas ela percebeu por certos antecedentes que o fato ia realizar-se enfim. 

 

Hermano apresentou-se ele próprio a Amália, como um admirador de sua bela voz que o tinha  por muitas vezes arrebatado. 

 

— Já me ouviu cantar? Aonde? perguntou Amália simulando ironicamente uma surpresa. 

 

— Não me conhece então? interrogou o cavalheiro por sua vez, pousando no semblante da moça um olhar comovido. 

 

— Se nunca o vi!... observou a moça com a mesma estranheza. 

 

— Nunca? 

 

Ela cerrou as pálpebras corando; quando as ergueu de novo todo o segredo de sua alma estava nos seus olhos límpidos e no meigo sorriso que veio à flor dos lábios. 

 

Depois disso falaram sobre mil nugas dessas que servem às conversas de sala. Eles bem sentiam a insignificância de suas palavras; mas achavam prazer nessa troca de futilidades que os retinha juntos, e dava-lhes pretexto para comunicarem-se pelo olhar e pelo gesto. 

 

O mesmo aconteceu nas outras noites. Quem os visse tão presos um do outro, tão entretidos na sua conversa, pensaria talvez que tratavam de coisas importantes, quando efetivamente não se ocupavam senão de trivialidades já muito repetidas. 

 

Nessa fase da existência de Amália e Hermano, nada há de novo e de particular. Foi o que tem sido sempre e há de ser eternamente a aurora do amor. Quem não conhece essas doces alvoradas do coração, que espancam todas as sombras e nos transformam a vida em um esplendor? 

(continua...)

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